O último poema

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

***

Assim quereria eu que fosse esse último mês do ano.

Que vontade de gritar!

A sociedade está entorpecida. Todos parecem esconder seus sentimentos. Livros de auto-ajuda vendem a rodo, enquanto todos se perguntam: O que está acontecendo comigo? A cidade parece ter transmutado todos em brocas, parafusos, porcas. Juntos, que bom, formamos uma massa única! Homogênea. Uniforme. Aculturada. Mas, não, motive-se! Você consegue! Você pode! Vamos, vamos… nesse mês atingiremos a produção recorde!
Já não distinguem mais o que é normal do que é comum. Drops nos faróis. Manipulação. Corrupção. Efeito estufa. Prostituição infantil. Pedofilia. Guerras. Enchentes. Má educação. Rampa antimendigos. Genocídios. Plágios. Hormônios nos frangos. Palavrão. Biopirataria. Dissimulação. Pessoas morrendo de fome no século XXI. Revitalização do centro. Televisão aos domingos. Compra de votos. Barracos à beira do rio. Mortes em estádios de futebol. Cela especial. Maluf solto? Ah, essa não… essa não é normal. Nem as outras são.

Mas se não é normal, onde estarão as pessoas? Vovó dizia que quem não coloca os sentimentos para fora desenvolve câncer. Seremos então todos cancerosos no futuro? O que aconteceu? Será que realmente viramos máquinas, não temos mais sentimentos… fomos robotizados? Ou será que é como aquele casal que passou a vida sem dizer um ao outro o que sentia e, no último átimo de segundo – EPIFANIA! – eu te amo!, não se vá…
Deixa eu olhar… não, não tenho nenhum chip em mim. Que bom, ainda posso chorar, gargalhar, enrusbecer, gritar, dizer não, sim, talvez um dia, quem sabe? Ou como diria Fernando Pessoa, posso dizer o grande? Ou como diria o grande Fernando Pessoa – afinal, para que tanto contimento? – “Multipliquei-me, para me sentir / Para me sentir, precisei sentir tudo/ Transbordei-me, não fiz senão extravasar-me”. Ah, que delícia…