Um dia daqueles

Era uma vez uma garota de seus vinte anos que não tinha nada para fazer em uma chuvosa tarde de sábado. Aquela semana havia sido de leituras, de idas à locadora e de trinta horas no estágio. Assistira a uns oito filmes – entre eles, os horrendos População 436 e Quarto 6 – e lera três livros – ela gostou muito de Ensaio Sobre a Cegueira e de Admirável Mundo Novo.

Até que, mergulhada em tédio profundo, ela resolveu acompanhar seus pais ao supermercado. As compras feitas, uma ligeira virada para buscar um delicioso pão de milho. O pão na mão e a ânsia de ir ao caixa, somadas a uma surpresa: “O carrinho sumiu!”

A busca de uma hora pelo supermercado resultou em nada, o carrinho abarrotado de compras havia, definivamente, aparatado. “Ah, não vou mais comer sucrilhos”, ela poderia ter pensado, mas de sua boca saiu apenas um gigantesco “Merda!”.

As compras refeitas, a ida ao caixa. O que a sortuda Família não sabia é que nessa época do ano os supermercados fazem liqüidações. Não sabia também que, naquele fatídico sábado, havia naquela loja da longíqua província de Oz uma super-hiper-mega queima de estoque que compreendia desde panelas de pressão a aparelhos de som.

A fila, portanto, estava gigantesca. Na frente da Mãe, do Pai e da Filhinha-do-coração, seis carrinhos abarrotados. Desistir, na altura do campeonato, seria demonstrar fraqueza e falta de coragem. Antes tivessem desistido…

“Garotinho,” perguntou o Pai, “a gente percebeu que você está guardando lugar para alguém. Essa pessoa tem muitas coisas no carrinho?”

“Não, só um pacotinho”, respondeu o Garoto. O pacotinho transformou-se em um carrinho, mais abarrotado ainda do que o do Pai, da Mãe e da Filhinha-do-coração. Os três respiraram fundo e seguiram a na fila.

De repente, mais um carrinho. “Você está brincando que vai entrar na nossa frente!”, perguntaram os três em uníssono.

“Não, eu tenho visita em casa, tô com pressa. O menino estava guardando lugar pra mim.”

Em uma argumentação que envolveu questões filosóficas como o jeitinho brasileiro e a Lei de Gérson, a Filhinha-do-coração viu que certas coisas não mudam. E perdeu sua tarde de sábado chuvosa, na qual poderia ter lido mais umas trinta páginas e assistindo a um bom filme.