“e o fim é belo incerto…”

Entrei no Pompéia 10. Seis meses haviam se passado desde que conhecera aquele ônibus. No caminho para Perdizes – sim , o ônibus chama-se Pompéia, mas meu estágio ficava em Perdizes – , fui pensando na vida. Aliás, acredito eu, meu maior defeito é pensar demais. Mas deixa isso pra lá. Desci na mesma rua de sempre e caminhei até o número 708 da Apinagés. Uma ladeira enorme e movimentada. Para quem não sabe, a Ana Hickmann foi minha vizinha de muro por um semestre. Vez ou outra ela aparecia na varanda do sobradinho, uma casa branca simples com muitas orquídeas penduradas. Ela regava as plantas sempre de calça de moletom e com o cabelo em um rabo-de-cavalo displicente. Pensando bem, deveria ter tirado uma foto e enviado para uma revista de fofoca. Daria uma boa manchete: “Ana cuida de suas plantas no aconchego do lar”. Mas não enviei. Mas porque estou falando dela? Não sei. Sei apenas que lembrei disso agora.

O número 708 estava do mesmo jeito. Adentrei o Estúdio, liguei meu iMac verde (umas das minhas grandes alegrias no início de setembro passado era trabalhar nessa máquina verde). Os mesmos e-mails de sempre: “enlarge your penis” e “make your girl crazy” eram os mais recorrentes. Fiz meu trabalho (sim, hoje eu tinha trabalho!), brinquei com os cachorros, joguei conversa fora.

Despedi-me das pessoas e fui embora.

Ao sair, senti-me diferente: mais madura do que há um semestre e mais segura de mim e de meus ideiais. Uma vontade imensa de escrever, de apurar, de fazer reportagens. Daí lembrei de um verso de Fernando Pessoa. Esse mesmo que vocês pensaram: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

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