O tênis

Subiu no ônibus com a mochila pendurada em um só ombro. Ofereceu ao cobrador uma nota de vinte reais. A garota recebeu um troco amarrotado e mal-educado, dirigiu-se para o fundo do veículo e sentou-se em um daqueles bancos altos. No assento do lado, um menino de seus dezoito anos. Cabelos cacheados, ar inquieto. Os pés dele balançavam irriquietos em um tênis Adidas, verde, cada qual com duas tarjas creme. Levantou as pernas, apoiando-as sobre o banco da frente. Olhou para o lado. Ela também olhou. Por um lapso de segundo, enrusbeceu. Ela então, com um olhar furtivo, também ergueu as pernas, apoiando-as sobre o banco da frente. Os pés da garota balançavam também impacientes, em um par não com quatro, mas seis faixas creme. E ali, naquele trajeto entre o número 800 da Dr. Arnaldo e o primeiro ponto da Cardeal Arco Verde, duas almas se encontraram. E reconhecerem-se.

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