Quando soa aquela nota

Levou o violão para o colégio. Teria aula no conservatório naquela tarde. Relutante, pediu para que ele afinasse o instrumento. As cordas eram novas e ela, com sua longa carreira de dois meses de estudo, ainda não sabia distinguir um si bemol de um fá sustenido.

Com um sorriso charmoso, ele aceitou o pedido tímido. Apoiou o pé na carteira da sala de aula. As mãos dele seguraram o instrumento. Ela acompanhava cada movimento, cada expiração e inspirou-se. Ele tem jeito para a coisa, pensou. Ela era apaixonada por mãos. E aquelas deslizavam tão jeitosamente, como já haviam deslizado por outros caminhos. Ele segurou o instrumento de maneira preciosa, com o mesmo carinho com que os garotos seguram suas garotas, convidando-as se sentarem em seu colo, no aconchego de seu carinho. Naquele momento, o violão era sua garota – ela sentia isso.

Nos primeiros acordes, sentiu borboletas em seu estômago. O instrumento já afinado, ele não resistiu. Não precisava, não tinha explicação, mas ele quis. Ela também não resistiria mais tarde. Ele, malvado como somente eles às vezes podem ser, sabia qual era o ponto fraco dela. Arranhou uns acordes de Bohemian Rhapsody, mas ainda não era essa. Foi então que ele acertou. Maravilhada, estremeceu. Olhou nos olhos dela e cantarolou baixinho, como um presente: “So, so you think you can tell? Heaven from hell…”.
 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s