Clarice, logo existo

A primeira vez que eu li Clarice Lispector foi aos catorze anos. Como não podia deixar de ser, o “ritual inicialístico” se deu com A Hora da Estrela, talvez o livro mais indicado àqueles que não estão acostumados a maneira clariceana de expressão: o fluxo de idéias, o universo do eu em detrimento ao universo do nós, as densas – e por vezes demasiado doloridas – imagens construídas. Aquilo não parecia prosa. Era poesia! Não dizem que os bons poemas lêem a gente? Pois foi o que me aconteceu. Uma leitura penosa, com doses homeopáticas de crueldade e de sinceridade.Macabeá e seu apreço por parafusos e Coca-Cola me conquistaram. Até hoje me vejo um pouco como a personagem. Não pelos gostos despropositados ou pelo “viver sem ter vontade de viver”, mas sobretudo por, muitas vezes, também me sentir sozinha em meio a uma multidão ou até mesmo em meio aos amigos de todo dia.

Clarice me ensinou um pouco a me conhecer. Sim, havia também em mim universos paradoxais em constante movimento, prontos para explodir! Entendi que não havia problema algum nisso. Como a Clementine de Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, eu também “sou uma pessoa tentando se entender”. Eu não estou sozinha nessa história.

Quem sabe, agora, a escritora também me ajude a me formar.

“Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos”. Se não for isso, será outra coisa então.

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