Experimental

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Comportamento vira-lata

Coroa-de-flor, crisântemo, vela, caixão, rosa, crucifixo, Pai-Nosso, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo, santinho, túmulo, pá, terra oca.

Fui a um velório. Voltei sentindo-me mal. Sim, às vezes temo a morte.

Nessas ocasiões, o clima é sempre igual. Os da família e os amigos choram. Alguns que não são da família e nem são amigos choram também. Dessa vez, deixei cair apenas uma lágrima.

Coroa-de-flor, crisântemo, vela, caixão, rosa, crucifixo, Pai-Nosso, em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo, santinho, túmulo, pá, terra oca.

Mas algum parente distante resolveu levar um cachorro. Um poodle cinza. Que não saía do colo. Que não parava de latir.

Fico me perguntando por onde anda o respeito que as pessoas deveriam ter pela vida.

Memórias de infância

Sentia que lá dentro as coisas já não eram iguais. Seus sonhos de infância pareciam inocentes. Tentou construir sua própria estrada de tijolos amarelos. Mas, de repente, esquecera-se do caminho a ser tomado. Abriu a boca num grito agudo e nada saiu. Não tinha lágrimas, não tinha voz, não tinha.

Tentou ser Dorothy, Alice e Joana em meio a um turbilhão de cobranças, expectativas e devaneios. Queria ser um pouco mais ela. Perdera a vez. Essa rodada ela passara para alguém que não conhecia, que pior!, não a conhecia. Porque, no fundo, era apenas isso que ansiava: conhecer. Aquela última corzinha que se vê quando os olhos são fechados. Isso ela ouvira em um filme e achara bonito. Suspiro.

Mas queria – como queria! – sua estrada de tijolos amarelos. O sabor doce da carne. A lembrança de um afago na cabeça. O não não esperado, mas, sabe-se lá como, pressentido. Vislumbrara sombras, chãos, tetos, essências. Enxergara cores de um mundo desconhecido e sonhado. Haveria nessa história uma bruxa? e uma varinha de condão? e um baile com um sapatinho e um gongo da meia-noite – atenção, você vai virar abóbora de novo ovo ovo ovo, chega ecooo! Não, queria personagens reais, ela mesma num mundo de fantasias e quimeras e simulações…

No fundo, era só o que queria: uma estrada de tijolos amarelos e uma música que acompanhesse sua vida, como trilha ideal. Continuaria procurando.

Bem estando

Clarice Lispector não tinha e-mail, não tinha telefone celular, não tinha blog. Mas, se tivesse um, ele poderia perfeitamente ter o mesmo nome do livro que reúne as crônicas da jornalista escritora publicadas no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973: A descoberta do mundo.

Há trinta e oito anos, em 17 de maio de 1969, Clarice escreveu uma crônica chamada “Facilidade repentina”:

“O bem-estar. É uma coisa muito estranha: a comida é boa, o coração é simples, encontro um menino na rua jogando bola, eu lhe digo: não quero que você brinque com a bola em cima de mim, ele responde: vou tomar cuidado. Fui ver um filme, não entendi nada, mas senti tudo. Vou vê-lo de novo? Não sei, posso dessa vez não estar em bem-estar, não quero arriscar, posso de repente entender e não sentir.”

Ela sabia das coisas.