Feliz aniversário.

Dia das Mães é todo dia, minha mãe insiste em dizer. Se fosse só sentir saudade. A música insistia em tocar. Minha mãe, em setembro de 2005, trazia a notícia. Mas tem sempre algo mais. Ouvia Angra dos Reis no quarto. O último mês havia sido conturbado, uma descoberta de câncer na família, o definhamento, a apatia de todos. Antes disso, todas as vezes em que viajava pelo Rodoanel lembrava dessa música. Certa vez, fui com meu pai pra Caieiras e no rádio do carro tocava a música da Legião. A gente comia biscoito de polvilho. Seja como for. Mas isso foi antes de setembro de 2005, quando ainda essa canção não estava associada àquela noite triste. É uma dor que dói no peito. O telefone tocou e lá debaixo eu ouvi o “ai, pai” dito por minha mãe. Não restava dúvidas. A música continuava tocando no rádio. Pode rir agora que estou sozinho. Com os olhos marejados, ela subiu e confirmou o que eu já sabia: minha avó se fora. Mas não venha me roubar. A música continuava a tocar. A garganta ficou seca, lembrei do Rodoanel, da tardezinha caindo, de meu pai e eu comendo biscoito. O céu estava alaranjado e a brisa entrava pela janela. Deixa pra lá. Mas isso foi antes de setembro de 2005. Naquela noite de setembro de 2005, a visão do mundo de lá de fora era diferente: uma noite parada, um céu quase sem estrelas. Quando as estrelas começarem a cair. O Rodoanel havia perdido Angra dos Reis para sempre, agora ela era da minha avó. Dia das Mães é todo dia, minha mãe insiste em dizer. Sim, Dia das Mães é todo dia, 13 de maio é aniversário da minha avó. Me diz, me diz pra onde é que a gente vai fugir?

Como é ruim não poder desejar feliz aniversário.

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