Pré-conceito

Eu e Elisa no ponto de ônibus, como sempre. De repente, um rapaz simpático se aproxima e pergunta “deixa eu ver esse livro?”. Claro, emprestei o livro. “Shakespeare, que legal. É do Harold Bloom. Sabia!”. Miro os olhos de minha amiga, que vai enrusbecendo. “Sabia que foi o Shakespeare quem inventou a expressão carta de amor? Pois é!”. Minha amiga diz “nossa, ele é quase um Guimarães Rosa”. “Ah, não”, ele responde, “Guimarães Rosa não presta. Vocês já leram Grande Sertão: Veredas?”. “Não, mas vamos ter de ler”. “Então”, emendou empolgadíssimo, “só lê quem é pseudo-intelectual, as pessoas ficam andando por aí porque é um livro longo”. Contrariadas, protestamos com um “claro que não, é muito bom!”. Mas nada adiantava, ele não parava de exaltar a obra do dramaturgo inglês. “Só me lembro das duas primeiras palavras do Grande Sertão: nonada“. “Ah”, respondem as duas. “Vocês já leram um livro chamado As 100 Personalidades Mais Influentes da História?”. “Não, ainda não”. “Então, dizem que na verdade ninguém sabe quem foi Shakespeare, um homem não poderia ter sido tão inteligente como ele foi”.

Caso você esteja interessado em discutir Macbeth ou Romeu e Julieta, pode encontrá-lo nas proximidades do número 900 da avenida Paulista. Fomos descobrir depois que esse rapaz simpático é vendedor de balas e de goiabinhas da Bauducco a cinquenta centavos cada.

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