Memórias de infância

Sentia que lá dentro as coisas já não eram iguais. Seus sonhos de infância pareciam inocentes. Tentou construir sua própria estrada de tijolos amarelos. Mas, de repente, esquecera-se do caminho a ser tomado. Abriu a boca num grito agudo e nada saiu. Não tinha lágrimas, não tinha voz, não tinha.

Tentou ser Dorothy, Alice e Joana em meio a um turbilhão de cobranças, expectativas e devaneios. Queria ser um pouco mais ela. Perdera a vez. Essa rodada ela passara para alguém que não conhecia, que pior!, não a conhecia. Porque, no fundo, era apenas isso que ansiava: conhecer. Aquela última corzinha que se vê quando os olhos são fechados. Isso ela ouvira em um filme e achara bonito. Suspiro.

Mas queria – como queria! – sua estrada de tijolos amarelos. O sabor doce da carne. A lembrança de um afago na cabeça. O não não esperado, mas, sabe-se lá como, pressentido. Vislumbrara sombras, chãos, tetos, essências. Enxergara cores de um mundo desconhecido e sonhado. Haveria nessa história uma bruxa? e uma varinha de condão? e um baile com um sapatinho e um gongo da meia-noite – atenção, você vai virar abóbora de novo ovo ovo ovo, chega ecooo! Não, queria personagens reais, ela mesma num mundo de fantasias e quimeras e simulações…

No fundo, era só o que queria: uma estrada de tijolos amarelos e uma música que acompanhesse sua vida, como trilha ideal. Continuaria procurando.

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