Flagelação auto

Era contida. Na dela, muitas vezes ria sem querer rir, falava porque deveria – e não porque desejava – falar. Acatava ordens, pontos de vista e dissimulações. Mas, naquele momento, só teve vontade de dizer: “Mas eu não sou assim”. A garganta tinha um nó. A voz estava embargada. E nada saiu. Nem um “mas”. Como sempre, acatara mais uma vez aquela menção à sua pessoa com uma ordem. Esse ponto de vista havia transformado-se no ponto de vista que tinha dela mesma. De repente, pintara-se também de dissimulada. Poderia ter dito que não, que não era assim, que ela era diferente, que não a conheciam tão bem para que falassem essas coisas. Mas não. Como sempre, calara. E, negando-se, levava adiante. Negaria para sempre suas maneiras e opções, jurando para si que não, que não era assim? Algum dia, pagaria ela pela sua própria alforria? No fundo, ninguém sabia como isso a incomodava. Mas ela também não se dava ao trabalho de explicar.

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