O cheio e o vazio

A expressão “era digna de pena” não poderia ser aplicada para descrevê-la. Não que não fosse. Era, e muito. Mas a expressão tinha uma impropriedade que recaía justamente sobre o fato da dignidade. Se havia uma coisa que não fazia parte de seu ser era a dignidade. Não lembrava quando a perdera – nem se algum dia chegara a ter. Provavelmente tivera sim, ou não seriam todas as crianças dignas?

Odiava que sentissem pena dela. Não sabia o porquê, mas odiava. Aqueles olhinhos marejados e cheios de compaixão mirando aquele ser tão vazio de si e de tudo. Mas também ignorava um outro porquê: Deus, porque sentem pena de mim? E, ignorando tal resposta, seguia vivendo feliz. Os outros, que dela se apiedavam – embora de maneira egoísta e efêmera -, seguiam também, mas com o peso dos olhar triste da mulher igorante de sua existência.

E, todos, a mulher da qual sentiam pena, os que sentiam pena, os que igonoravam a pena, todos seguiam. Como se aquilo fosse normal, como se as coisas fossem realmente daquele jeito, como frames de um filme que, quadro a quadro repete as mesmas cenas, nos quais nem os diálogos mudam, cheios de discurso e vazios de sentido.

Como aquela mulher, pobre mulher, cheia e vazia dela mesma.