Intimidade indecorosa

O ritmo caliente esquenta os corpos na boites eróticas. Letreiros luminosos pululam e fazem o convite irrecusável. No ar, cheiro de suor, de pipoca-doce, de esgoto, de gente que acordou à cinco, seis, e que volta para casa naquele fim de tarde paulistano. A poluição visual de cartazes, outdoors e promessas de felicidade amorosa e financeira mal permitem aos recém-chegados o conhecimento da informação crucial: mas-que-lugar-é-esse?

O camelô coloca o CD – pirata, é claro – para tocar. O som assusta os menos precavidos. Em uma mistura de pop latino com guitarras elétricas e acordes amazonais, o que rola mesmo é “o Calypso que chegou para ficar…”. A mulher da banca de ervas medicinais não sabe da matemática e nem do português, mas sim da utilidade de um bom chá de pau-do-tenente ou do Boa Forma. Tudo natural, sem química e sem efeito colateral, garante.

Quando o semáforo fecha, a correria de gente, e carros, e gente com mais carros, e pasmem!, até mesmo de galinhas com gente, deixaria em de cabelo em pé qualquer madame freqüentadora assídua de um, digamos, shopping Iguatemi. Mas não deixa aquelas pessoas, acostumadas com o contato indecente dos corpos naqueles ônibus enfileirados que pegam ali mesmo, em uma viagem para casa que durará, muitas vezes, uma ou duas horas.

Não é difícil ver o trânsito parar, como em todo e qualquer lugar de São Paulo. De repente, peças cadavéricas saem do caminhãozinho estacionado na rua. O cheiro de carne bovina espalha-se pelo local, misturando com o do perfume de lavanda barato e, num átimo, como que para desviar o olhar, vira a cabeça para o alto e lê-se na placa azul, em letras infantis pintadas: Largo da Batata.

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