O cheio e o vazio

A expressão “era digna de pena” não poderia ser aplicada para descrevê-la. Não que não fosse. Era, e muito. Mas a expressão tinha uma impropriedade que recaía justamente sobre o fato da dignidade. Se havia uma coisa que não fazia parte de seu ser era a dignidade. Não lembrava quando a perdera – nem se algum dia chegara a ter. Provavelmente tivera sim, ou não seriam todas as crianças dignas?

Odiava que sentissem pena dela. Não sabia o porquê, mas odiava. Aqueles olhinhos marejados e cheios de compaixão mirando aquele ser tão vazio de si e de tudo. Mas também ignorava um outro porquê: Deus, porque sentem pena de mim? E, ignorando tal resposta, seguia vivendo feliz. Os outros, que dela se apiedavam – embora de maneira egoísta e efêmera -, seguiam também, mas com o peso dos olhar triste da mulher igorante de sua existência.

E, todos, a mulher da qual sentiam pena, os que sentiam pena, os que igonoravam a pena, todos seguiam. Como se aquilo fosse normal, como se as coisas fossem realmente daquele jeito, como frames de um filme que, quadro a quadro repete as mesmas cenas, nos quais nem os diálogos mudam, cheios de discurso e vazios de sentido.

Como aquela mulher, pobre mulher, cheia e vazia dela mesma.

Anúncios

Flagelação auto

Era contida. Na dela, muitas vezes ria sem querer rir, falava porque deveria – e não porque desejava – falar. Acatava ordens, pontos de vista e dissimulações. Mas, naquele momento, só teve vontade de dizer: “Mas eu não sou assim”. A garganta tinha um nó. A voz estava embargada. E nada saiu. Nem um “mas”. Como sempre, acatara mais uma vez aquela menção à sua pessoa com uma ordem. Esse ponto de vista havia transformado-se no ponto de vista que tinha dela mesma. De repente, pintara-se também de dissimulada. Poderia ter dito que não, que não era assim, que ela era diferente, que não a conheciam tão bem para que falassem essas coisas. Mas não. Como sempre, calara. E, negando-se, levava adiante. Negaria para sempre suas maneiras e opções, jurando para si que não, que não era assim? Algum dia, pagaria ela pela sua própria alforria? No fundo, ninguém sabia como isso a incomodava. Mas ela também não se dava ao trabalho de explicar.

800 convidados? E nem me chamaram…

Fez o sinal para o ônibus, o que só acabou por ressaltar um relógio que faria inveja ao Fausto Silva.

“Esse ônibus passa nesse endereço?”

“Hum, deixa eu ver… passa sim, em frente ao Residencial Três.”

“E como eu faço? Dá pra pegar outro ônibus?”

“Não. Você desce na portaria e vai a pé… onde você vai? É casa?”

“É, eu vou na casa de um cara pegar uma roupa pra eu ir na festa da Dercy Gonçalves…”

“Ah…”, foi o que saiu da boca do motorista.

Quatro décadas de inovação

Na verdade eu não gostava muito de Beatles.

Mas ela me ensinou a gostar. Tanto dela (ah, mas dela eu já gostava!), quanto da banda que, há exatos 40 anos, lançava o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

À ela, meu muito obrigada. Aos dois leitores do Onomatopéia, a indicação de uma matéria escrita por mim e pela Amelie para o site de Cultura Geral da Cásper Líbero.