A criança no colo

Aproximou-se com passos curtos. Podia-se de longe imaginar claramente o tec-tec-tec de seu arrastar. Os pés rachados e as unhas encardidas denunciavam aquela mãe. Cansada da vida, carregava a criança como um fardo. Revogara de seu direito de ser mulher para tornar-se apenas: mãe. Os cabelos desgrenhados, um soslaio triste e amarelado. E a criança, destoante por inteira de sua mãe. Afinal, não combinava com ela. A mulher não carregava consigo o dom e nem a certeza da maternidade.

A criança no colo da mãe não parecia estar confortável. Olhava assustada para todos que atravessavam seu infantil campo de visão. Seu olhar que não parecia com o de uma criança, mas sim de um adulto já malhado pela vida. Um olhar de quem espera pela morte. A menininha chegara ao cúmulo de observar um rapaz por quinze minutos ininterruptos, fazendo uma pequena pausa apenas para ajeitar a chupeta na boca. Até isso, arrumar uma chupeta, tarefa tão maternal, a criança tinha que fazer sozinha, com toda a sua experiência de seis ou sete meses de vida.

Paradas ali, mãe e filha pareciam carregar toda a tristeza com elas. Em um momento singular de atenção, a mãe deu sinal para o Vila Piauí que chegava. Subiu no ônibus.  

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