A criança no colo

Aproximou-se com passos curtos. Podia-se de longe imaginar claramente o tec-tec-tec de seu arrastar. Os pés rachados e as unhas encardidas denunciavam aquela mãe. Cansada da vida, carregava a criança como um fardo. Revogara de seu direito de ser mulher para tornar-se apenas: mãe. Os cabelos desgrenhados, um soslaio triste e amarelado. E a criança, destoante por inteira de sua mãe. Afinal, não combinava com ela. A mulher não carregava consigo o dom e nem a certeza da maternidade.

A criança no colo da mãe não parecia estar confortável. Olhava assustada para todos que atravessavam seu infantil campo de visão. Seu olhar que não parecia com o de uma criança, mas sim de um adulto já malhado pela vida. Um olhar de quem espera pela morte. A menininha chegara ao cúmulo de observar um rapaz por quinze minutos ininterruptos, fazendo uma pequena pausa apenas para ajeitar a chupeta na boca. Até isso, arrumar uma chupeta, tarefa tão maternal, a criança tinha que fazer sozinha, com toda a sua experiência de seis ou sete meses de vida.

Paradas ali, mãe e filha pareciam carregar toda a tristeza com elas. Em um momento singular de atenção, a mãe deu sinal para o Vila Piauí que chegava. Subiu no ônibus.  

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Lorota

 

O poeta pena
Quando cai o pano e o pano cai
Um sorriso por ingresso
Falta assunto, falta acesso
Talento traduzido em cédula
E a cédula tronco é cedúla mãe solteira

O poeta pena
Quando cai o pano e o pano cai
Acordes em oferta
Cordel em promoção
A prosa presa em papel de bala
Música rara em liquidação

E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
Luz acesa
Já se dorme um sol em mim menor

Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior

O palhaço pena
Quando cai o pano e o pano cai
A porcentagem e o verso
Rifa, tarifa e refrão
Talento provado em papel moeda
Poesia metamorfoseada em cifrão

O palhaço pena
Quando cai o pano e o pano cai
Meu museu em obras
Obras em leilão
Atalhos retalhos e sobras
A matemática da arte em papel de pão

E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
Luz acesa
Já se abre um sol em mim maior

Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior

(Pena, d’ O Teatro Mágico)

Em entrevista para a reportagem Sucesso Independente”, da última Veja São Paulo, o editor de música da Playboy disse que a poesia d’ O Teatro Mágico é pobre e que o discurso político é rasteiro.

Aham. Sei.

Classificação etária: livre

Fui a uma das onze salas de cinema que existem em Osasco. O filme, um dos mais esperados do ano: Harry Potter e a Ordem da Fênix. A sala é uma daquelas que possuem mais de 400 lugares, som THX (não me pergunte o que é isso, para mim, “THX” parece nome de hormônio) e muitos, mas muitos adolescentes de férias. Julho é a época do ano em que eles saem à solta. Prova disso é a programação do Kinoplex de Osasco que, por coincidência, é a mesma das salas de projeção do Osasco Plaza Shopping (onde aconteceu o acidente com o gás encanado há treze anos). Filmes como Ratatouille, Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, Shrek Terceiro e Transformers atraem pencas de garotos e garotas com muito hormômio THX.

Fiquei com vontade de gritar “Ô da caravana” para o grupo de mais de quinze amigos que infernizaram as mais de duas horas de projeção de A Ordem da Fênix. Imaginei se eles haviam ido até o cinema em um ônibus fretado, com direito à pipoca e refrigerante, perante uma autorização por escrito dos pais. Agüentei firme. Até mudei de lugar. Com muito pesar, abandonei a galera do fundão e fui me juntar a um outro grupo, mas esse constituído por japoneses. Eles pareciam ter saído de uma convenção de anime.

No ponto alto do filme, já no Ministério da Magia, quando aquilo-que-você-sabe-o-quê acontece com um dos membros da Ordem da Fênix, quando as emoções estão à flor da pele e quando o “Avada Kedavra” é dito, uma adolescente, gritando, intervém:

“Filha da p…”

Todos soltam gargalhadas. Então eu sou chamada de volta à realidade, em um mundo sem varinhas de condão, poções mágicas e maldições imperdoáveis.

Nascido em 4 de julho

Quando ele nasceu, trouxe de presente para mim um Cachorro Snif Snif. Era uma cãozinho de pelúcia da Estrela que vinha com certificado de origem, como um pedigree, e tinha um rostinho de pidão. Pelo menos é o que a minha mãe me contou na época. Afinal, porque aquela bolinha com cara de joelho tinha de aparecer dois dias antes do meu aniversário de dois anos? Tempos depois fui perceber que aquela bolinha seria fundamental na minha vida. Já ousava até a chamá-lo pelo nome: no começo Caco – por causa dos Muppets Babies – e, depois, Caio.

Um amigo do Caio, também chamado Caio, certa vez me falou “Não sei se é sorte ou azar aniversariar em uma data tão próxima”. Na hora, não soube o que responder. Mas agora, pensando bem, acho que é sorte. Tê-lo como irmão – não importando a data, o humor, a idade, o lugar – é sempre uma dádiva.

Como o bebê, que só queria colinho

Com o Snifinho, um outro presente. “Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você”