Retrato de um fim de tarde quente

No caminho pra casa, um cachorro descansava na calçada, próximo à soleira de uma porta. Sob o sol quente, dormia. Quando me viu, abanou o rabo. Ele estava sujo, com fome, doente e triste. Lancei um olhar de ai que dó e continuei.

Mais à frente, um outro cachorro um pouco mais velho. Com a pata estropiada, veio feliz me cumprimentar. Ao seu lado, um pote de margarina com restos de ontem. Ignorei seu olhar carente e sedento por carinho.

Cem metros depois, um homem descansava na calçada. Entorpecido pelo álcool e pelo sofrimento, não esboçou alegria quando me viu. Estava com fome, doente e triste. Sua perna gangrenada estava enrolada em uma atadura já gasta pela chuva, pelo pó e pelo concreto. Tudo nele era sujo. Mais uma vez, segui meu caminho confortável.

Ao menos os cães sabem que são apenas cães.