Vermelha

Não via a Dayse há quase dois meses. Pra quem não sabe, ela é uma amiga muito querida que estudou comigo durante três ou quatro anos. Chegou de Mickeylândia, ops, Niquelândia no domingo e foi me visitar na saída da aula hoje. Coloquei todo o material que tinha nas mãos sobre o murinho que delimita os jardins da Avenida Paulista, pronta para um abraço gostoso. Estava pronta, mas tive de esperar um pouco mais. Isso porque uma senhora e seu cão me interromperam:

“Mocinha [adorei o mocinha], essa revista é boa?”

“Olha, eu gosto muito…”

“É sobre política?”

“Não só. Tem cultura, esporte… Trata de vários assuntos, mas tem bastante texto…”

“É, porque esses dois aí na capa não dizem nada… Obrigada, mocinha!”

 

A minha já está toda amassada de tanto carregar por aí.

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O lirismo no jogo da vida de João Antônio

Como introduzir lirismo no submundo da noite paulistana? O escritor João Antônio encontrou uma maneira de fazer isso em seu conto Malagueta, Perus e Bacanaço (reeditado pela Cosac Naify, 222 páginas, 2004, com prefácio de Antonio Candido). O livro, originalmente publicado em 1963, também reúne outros contos e rendeu a João Antônio dois Prêmios Jabuti, o de Autor Revelação e o de Melhor Livro de Contos do Ano.

Malagueta, Perus e Bacanaço são três malandros típicos que flanam pela noite de São Paulo. À procura de diversão e lucro fácil, eles levam a vida com o dinheiro ganho em partidas de sinuca, jogo no qual são mestres. Bacanaço é quem administra o dinheiro ganho pelo senhor Malagueta e pelo garoto Perus em suas andanças. O conto é dividido em seis capítulos: Lapa, Água Branca, Barra Funda, Cidade, Pinheiros e Lapa. Curiosamente, o mesmo número de caçapas existentes na mesa de sinuca.

A todo o momento, a prosa de João Antônio se converte em poesia, tal é o lirismo que ele funde em sua narrativa. Sem soar artificial, o escritor empresta das bocas-do-lixo as gírias tão inerentes ao seu estilo. De maneira que, o modo de falar da periferia – muitas vezes retratado na literatura forçadamente –, aparece estilizado nas frases de João Antônio (à semelhança de Graciliano Ramos com o matuto brasileiro), como é o caso do “quebrado, quebradinho” e do “era a hora muito safada dos jogadores”.

Apesar de ser uma linguagem recriada, o contista consegue representar uma faceta de um mundo desconhecido pela classe média. Com uma escrita chegada ao ritmo do samba paulista, o que vemos diante de nós é um conto de exacerbação dos sentidos, onde metáforas e sinestesias se fazem presentes, confundindo o jogo da vida, o jogo de sinuca e o jogo textual.

O ritmo do texto se dá pela aliteração e pela assonância, daí sua proximidade com a poesia. Malagueta, Perus e Bacanaço, quando estão em Perdizes, sentem-se como três intrusos. João Antônio então escreve: “Um sentimento comum unia os três, os empurrava. Não eram dali. Deviam andar. Tocassem”. A brevidade e a objetividade, somadas à presença das consoantes t, p e r, provocam no leitor a secura e a dimensão de quão intrusos aqueles jogadores de sinuca se sentiam naquele espaço que não era deles. Breve, mas nem por isso menos intensa é a vida dos três. Uma nostalgia constante – sobretudo no garoto Perus e sua saudosa Vila Alpina com “sua vidinha estúpida e sem jogo” – dá o tom à narrativa e caracteriza bem a vida errante dos malandros.

Em Malagueta, Perus e Bacanaço, a rua é um lugar de histórias e de onde, habilmente, João Antônio tira o lirismo de seus personagens à medida que os retira de sua podridão. Esse lugares noturnos, a astúcia e a malandragem dos três malandros na luta pela sobrevivência, levam o leitor a acreditar que a vida não leva e nada e que, diante de tal impotência diante dela, não resta a ele senão vivê-la.

Como Lima Barreto, João Antônio Ferreira Filho também é uma daqueles escritores esquecidos, mas que contribuíram em muito para a literatura do Brasil e para a descoberta de outros mundos raramente lembrados pela intelectualidade.

Nascido em Osasco, cidade periférica da Grande São Paulo, João Antônio Ferreira Filho desde jovem freqüentava rodas de samba, bordéis e quebradas por onde desfilavam os tipos que mais tarde viriam a povoar o imaginário de suas histórias: prostitutas, biscateiros, jogadores de sinuca. Talvez por isso sua prosa seja por vezes tão autobiográfica e soe tão natural, em que vida narrada e vida vivida se confundam constantemente.