O soluço dela – e no que ele me fez pensar

Apertei o pause e tirei o fone do ouvido. Voltei a cabeça um pouco para o lado dela e então pude ver de onde vinha o tec tec tec. Ela digitava as letras com pressa. Suas mãos tremiam. Estiquei-me um pouco e li na tela do celular: “não precisava vc ter me feito chorar denovo”. Não me contive: fitei seu rosto. Era muito bonita. Cabelos loiros e longos, uma boca vermelha. Usava um vestido comprido e estampado em laranja e em amarelo vivos, um perfeito exemplar do tipo de roupa que só cai bem em pessoas altas e magras. Tinha os olhos verdes. Naquele momento, porém, o que mais  chamava a atenção nela não era o vestido cítrico, nem a boca bem-feita ou muito menos os olhos esverdeados. O que mais denunciava sua presença no ônibus era seu choro. Chorava como se por muito tempo algo estivesse em sua garganta aguardando a hora mais propícia para explodir feito rojão.

A moça me fez experimentar uma agonia enorme durante os  cinqüenta minutos em que estive sentada ao seu lado. Eu quis perguntar o que ou quem poderiam ter feito ela soluçar daquela forma. Não o fiz, é claro. Depois desse sentimento altruísta, me senti como se estivesse invadindo seu espaço. Encolhi-me então um pouco mais na minha parte do banco duplo. Aquela outra metade era dela, que chorasse tudo que quisesse, mas sem o meu olhar invasivo e inquisidor. Depois veio um sentimento egoísta e mesquinho: sorte minha aquilo não estar acontecendo comigo (sim, nós podemos ser malvados quando queremos – e bem mais do que imaginamos).

Por fim, a única coisa que saiu da minha boca foi um “você me dá licença, por favor?” quando meu ponto de descida finalmente chegou. A esse pedido a moça respondeu com um sorriso largo. Amarelo. “Sorria na sala e chore no quarto”, foi o que me aconselharam já há algum tempo.

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