Ioiô

A lembrança mais remota que tenho da minha presença no mundo está ligada também a primeira vez que me senti realmente sozinha. Foi em uma noite de sábado seca e quente que eu me dei por gente, em mais um daqueles momentos onde a dor vem acompanhada por uma consciência espinhosa e fria.

A pizzaria ficava a um quarteirão de casa e minha mãe havia provavelmente pedido uma “meia frango com catupiry, meia quatro queijos”, como de costume. Eu devia ter então uns quatro anos de idade. A única coisa que me lembro com exatidão é do momento que eu e minha curiosidade infantil nos dispersamos por entre pernas com canelas finas à mostra – dada minha altura, a perspectiva da cena que me vem à cabeça é exclusivamente essa -, abandonando, dessa forma, o patriarca da família. Todas aquelas pernas desconhecidas, um andar arrastado e alheio. O inesperado, o medo, a aflição de não voltar para casa.

Os sentimentos da infância ficam em um ir-e-vir quando crescemos.

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