Na prática

Hoje alguém chegou ao Onomatopéia buscando por “como escrever o nome no coração” na web. Achei bonito alguém procurando por isso, mas um sistema de busca como o Google é incapaz de responder esse dúvida. Ainda bem. Certas coisas ficam beeem mais gostosas quando erramos, e erramos, e erramos mais uma vez, até que chega uma hora em que acertamos.

A volta de Pasárgada

Porque lá não tem dúvida,  não tem medo nem aflição. Lá, tenho a mulher que quero, na cama que escolher – lá, falta-me o suor da conquista. O receio não me bate em cheio como bate aqui. Naquele lugar, tudo é certo, nada é errado. Não erro, não vacilo, não traio, não magoo. Em Pasárgada, o nó não vem na garganta, não provoca cosquinhas quando as lágrimas fazem questão de aparecer. A voz é sempre límpida, não tem choro, nem vela. As tristezas são tratadas com a mulher que quero, na cama que escolher. Porque lá não tem meio termo, não tem talvez. Lá, o processo é seguro. Quem disse que anseio segurança, afinal? A solidão lá é passageira, aqui pode não ser – mas então que assim seja, só na multidão, mas de cara e nua pra vida – e que venha vida! Naquele lugar, os banhos nos rios nos fazem lembrar de tempos que se foram (alguns tempos eu só queria esquecer). Eu sei o que quero, o que preciso fazer (essa semana um nick me mandou um recado de forma súbita: “indecisão”, veio me dizer ele, “é quando você sabe muito bem o quer, mas acha que devia querer outra coisa”). Em Pasárgada, quando à noite eu estiver mais triste, me trato com a mulher que quero, na cama que escolherei.

Não quero cama, não quero escolher.

Descomprimir-se

— Gostaria que você não me espremesse tanto — reclamou o Leirão, que estava sentado junto dela. — Mal posso respirar.

— Não posso fazer nada — informou Alice pacientemente. — Estou crescendo.

— Não tem direito. Isso aqui não é lugar pra você crescer — protestou o Leirão.

— Não diga asneiras — disse Alice com mais ousadia. — Você sabe que está crescendo também.

— Sim, mas cresço dentro de um ritmo razoável — disse o Leirão — e não dessa maneira ridícula.

(Aventuras de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll)

Diabetes

 

A vontade era de jujuba. Enfiei a mão no pote. Uma infinidade de pequenas balinhas laranjas rosas amarelas verdes roxas desfilou pelos meus dedos. Nenhuma delas me apetecia. Todas tinham a aparência ordinária, tão comuns em sua mesmice de cores infantis. O gosto, sempre o mesmo. Açucarado no começo, depois de algumas provocava enjôos. Foi então que vi uma, bem no fundo. Não acreditava em auras, mas o que seria então que chamava tanto a atenção naquela bala de goma? Tão distante, difícil de alcançar. Dia após dia, uma bocanhada nas outras jujubas deixava o caminho livre, isento de obstáculos. E assim, com o desenrolar das semanas, a rara balinha ficava mais ao alcance das mãos. Podia até sentir a superfície do almejado prêmio. Vez ou outra, os dedos roçavam-na de leve, em um carinho comedido, um leve toque de desejo. A trajetória até ela não seria fácil, mas também, o que me custaria tentar? No máximo, uma alta taxa de glicose no sangue. O que não mata engorda.