A volta de Pasárgada

Porque lá não tem dúvida,  não tem medo nem aflição. Lá, tenho a mulher que quero, na cama que escolher – lá, falta-me o suor da conquista. O receio não me bate em cheio como bate aqui. Naquele lugar, tudo é certo, nada é errado. Não erro, não vacilo, não traio, não magoo. Em Pasárgada, o nó não vem na garganta, não provoca cosquinhas quando as lágrimas fazem questão de aparecer. A voz é sempre límpida, não tem choro, nem vela. As tristezas são tratadas com a mulher que quero, na cama que escolher. Porque lá não tem meio termo, não tem talvez. Lá, o processo é seguro. Quem disse que anseio segurança, afinal? A solidão lá é passageira, aqui pode não ser – mas então que assim seja, só na multidão, mas de cara e nua pra vida – e que venha vida! Naquele lugar, os banhos nos rios nos fazem lembrar de tempos que se foram (alguns tempos eu só queria esquecer). Eu sei o que quero, o que preciso fazer (essa semana um nick me mandou um recado de forma súbita: “indecisão”, veio me dizer ele, “é quando você sabe muito bem o quer, mas acha que devia querer outra coisa”). Em Pasárgada, quando à noite eu estiver mais triste, me trato com a mulher que quero, na cama que escolherei.

Não quero cama, não quero escolher.