Até no guarda-volumes…

ele me persegue.

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DVDs a partir de doze e noventa

Procurando Nemo, Sobre meninos e lobos, não, não. Eu, eu mesmo e Irene, O Rappa Acústico MTV, Muito gelo e dois dedos d’água, eca. Piaf, Guia do Mochileiro das Galáxias, Dogville, Happy Feet, também não. A dona da história, Calypso Ao Vivo, Johnny e June, Tudo sobre minha mãe, tsc tsc. A noviça rebelde!

Fazendo a alegria dos pobres.

Jogo dos tantos erros

Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã. Me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã

Pause

“Ai, amiga, ontem eu encontrei minha sobrinha. Tadinha, ela é inteligente e tudo, sabe? Mas tá estudando biologia. Biologia! Eu falei pra ela “isso não leva a nada, o que você quer ser da vida? Professora, é? Desse jeito você não vai crescer na vida” , mas ela disse que gosta. Agora, me diz, o que essa menina vai ser da vida? Trabalhar no Instituto Butantã? Afe. Eu disse pra ela que ela vai ser pra sempre assalariada. Não, ela não ouve. Os irmãos dela, sim, estão certinhos na vida. Um faz administração de empresas e o outro direito… É, eles estão certos mesmo. Esses têm futuro. Já viu algum biólogo ter negócio próprio? Não!”

“Eles ainda podem prestar concurso público…”

“Ééé! Ela não sabe nada da vida. Eu falei que ela tá investindo tanto em educação… quando o retorno vai vir? Eu disse “olha você, uma menina bonita e estudada, você tem que ter o retorno. Fica aí, vinte anos estudando, um dia você vai ter que ter retorno disse tudo”. Tem que ver essa menina… a coisa mais linda… um corpo lindinho. Dá gosto de ver… Mas bióloga! Não sei pra que estudar tanto e continuar sendo pobre…”

Play

Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar e essas coisas que diz toda mulher. Diz que está me esperando pro jantar e me beija com a boca de café

Matemática

60 dias, 90 mil caracteres. 90 mil caracteres, 1500 caracteres por dia. 60 dias, 1500 caracteres por dia. 1500 caracteres é meia página de Word, espaçamento simples, Times 12 ou Arial 11. Ah, tem as figuras também, mas acho que isso não conta. Nota de rodapé também vale? Não sei se vale. Vou fazer o teste. Não, não conta. Escrevi lá: “Marília” e cliquei em Inserir, Nota de Rodapé. É, não vale. Se eu for em Contar palavras três pontinhos, ainda vai estar Caracteres (com espaço) igual a 8. Escrevi, sim, tá lá “Marília Scriboni”. Bom, nota de rodapé não conta. Puta mundo injusto! Como não conta? Se soubesse, não teria colocado as tais notas. Mas fica tão bunitinho, né? Só tem uma coisa que eu acho mais bonita que nota de rodapé: é vírgula. Êta negócio lindão! É tão bonitinho. Daqui em diante só vou escrever usando muitas, muitas, muitas vírgulas. Você reparou? Vírgula é tão perfeito, parece uma ondinha que vai nascendo na folha em branco. Ah, eu acho lindo. Pena que quando a gente fala não aparece a vírgula flutuando no ar. Nossa, ia ser demais. Já pensou você falando “O IBGE espera que área plantada de grãos tenha um aumento de 4,3% sobre o ano passado, com destaque para a soja, milho e arroz, os três produtos que representam 90% da produção de gr…” e as vírgulas todas saindo da boca e dançando no nada? Aiai, ia ser muito lindo mesmo. 1500 caracteres é meia página de Word, espaçamento simples, Times 12 ou Arial 11. 60 dias, 90 mil caracteres.

OLHA QUE LINDO! ,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,

Te conheço mas não

Cheguei na faculdade e dei de cara com um grupinho de sem-conhecidos. Torcendo para que nenhum deles me beijasse e achando que um oi coletivo satisfaria ambas as partes, fui firme na minha investida contra o espaço. Um menino simpático, porém, não se contentou: Depois de um “oi, Marííília!” efusivo, estalou-me um beijo na bochecha. Ok, agora eu teria que cumprimentar um a um. Mais estranho do que topar por aí com pessoas que mal conhecemos é reencontrar aquelas das quais um dia já fomos confidentes. O encontro com um vizinho no ônibus pode ser menos constrangedor do que o aparecimento de um amigo que você não via há um bom tempo. Semi-conhecidos não me causam mais pavor do que pessoas um dia muito próximas que saíram de nossas vidas do nada, levando com elas segredos e partinhas de nós que poucos possuem.

Lá estava ela entre os semi-conhecidos. Há algum tempo não nos falávamos. Antes disso, éramos amigas para sempre, amém. Tive que dar um oi também, meio sem jeito. Enquanto os outros eram semi-conhecidos, ela se transformou, no momento em que saiu da minha vida pela porta dos fundos deixando marcas de barro no capacho, uma semi-desconhecida. Sem saber como me comportar e me sentindo na obrigação de falar algo, apenas disse “tenho um livro seu comigo”, ao que ela respondeu com um “aaah” bem menos empolgado do que o “oi, Marííília!” do menino simpático.

No lugar de risadas e confissões, um vácuo habitado por uma fria distância pareceu ocupar o espaço que havia entre nós. Não possuíamos mais nada em comum, apenas um passado que talvez ambas preferissem esquecer. Uma distância psicológica que a proximidade física não venceu.

* Post publicado originalmente no blog Um pouco de Bossa