Desse jeitinho assim

Lá na casa de repouso os internos fazem cinco refeições por dia. Com exceção dos remédios, todos os gastos ficam por conta da instituição.

E hoje minha vó, que está morando lá já há quatro meses, pediu um trocadinho pro meu pai, assim, pra quando ela precisar comprar pão e leite, como ela sempre faz. Ou como ela acha que sempre faz.

Porque o Alzheimer é assim.

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O estranho sumiço do z

“Pai, onde é o bloco c?”

“O bloco c é onde eu moro.”

“E o bloco z?”

“Não tem… só tem a, b, c, d e e.”

“Mas porque não tem bloco z?”

“Porque não… são só esses cinco…”

“O alfabeto vai até o z, onde colocaram o z? Onde, hein, pai?”

A carinha de preocupação do menino tinha biquinho e tudo.

Ganhei o dia.

Rosa dos ventos

É o trivial que preenche seus diálogos. Ouve os outros para ocupar o espaço da fala que a ela caberia. De si, fechada em si, pouco mostra. Porque, contando suas alegrias, suas vontades e seus anseios, semeia suas partinhas aos quatro ventos: sua essência. A porção de si que faz o azul dela mais ou menos azul que o azul do vizinho. Vislumbra a cena: pessoas indo embora com suas confissões. Não suporta esse nível de desapego. Tem medo.

Logo, logo entro na comunidade “Saudade”

São vinte e nove comunidades em comum no orkut. Disso já se poderia escrever muito. Como a comunidade “Beatles”, que só entrei depois que nós duas fomos a um ensaio de uma banda cover a fim produzir uma série especial de rádio sobre o quarteto. Tem também a “Cásper Líbero – Jornalismo”, como não poderia deixar de ser. Afinal, foi lá que nos conhecemos. “Barba”, por sua vez, fui em quem roubou dela. Não, nós duas não resistimos ao garotinhos que assumem esse ar meio desleixado. E foi de mim que ela roubou “Rua Augusta”, nosso destino mais que certo quando a vontade era apenas de se ver e jogar conversa fora. Ainda tem “Pororoca Louca” (aaah, a Pororoca!) e “JUCA – Comunidade Oficial” (aí é uma história à parte). “Eu não guardo raiva daquela puta – eu não guardo um pingo de raiva daquela filha da puta” já foi assunto para as mesas de muito botecos – não só na Augusta. E, uma de nossas maiores paixões está em “Palavras batutas do dicionário” – talvez motivo maior de nossa aproximação. Fora isso, nós duas gostamos da primavera, de Rá Tim Bum, de vírgulas, da Turma da Mônica, de livros, da Mafalda e só nos casaríamos caso fosse em Las Vegas, com o tal imitador do Elvis.

A questão é que uma amizade não pode ser medida apenas por comunidade idiotas. Amigo que é amigo ocupa tanto espaço dentro da gente que fica um vazio quando pensamos o que vai ser da gente sem eles por perto. Era ela quem me aguentava nos meus inúmeros momentos de indecisão e nos surtos amorosos. A amiga que comigo vivia a gulodice dos cookies e chocolates, que ficava com medo do texto atrasado do trabalho de conclusão de curso, que não prestava atenção na aula comigo. A amiga que tem a paciência de sentar no chão do setor de livros infantis da livraria e que adora as listas de melhores filmes do século just to check.  A amiga que como eu não se importa em deixar de pentear o cabelo, de repetir a roupa e de usar All Star em quase todas as ocasiões. O vazio só não é maior porque sei o quanto ela desejou estar onde ela está agora.

Foi hoje que a Lígia pela segunda vez desembarcou em Nova York, local do início de uma jornada de um ou dois anos. A despedida que seria no sábado eu deixei pra ontem. Na meu caminho de volta, ela foi me levar até a estação de trem. Minha casa e a dela antes ficavam a quatro estações de distância, mesmo estando em cidades diferentes. Agora eu nem sei quantos quilômetros são. Só sei que é o bastante pra eu sentir saudade, pra língua coçar na hora de contar a novidade e a fofoca.

“Caros, não estou indo embora de vocês”, foi o que ela escreveu há quase uma semana lá no blog dela. Na verdade, a meninota não sabe que quem não vai deixar ela ir embora de mim sou eu. Porque amigas como eu não são nem bobas de deixar amigas como ela irem assim.