Acho tudo tão bonito

Os caracteres negros que preenchem a página em branco do Word, a poesia do Nando Reis que rabisco no vidro embaçado durante o banho, a maçã da fruteira, vermelha e se fingindo de gostosa (as verdes são as mais saborosas, como é de conhecimento de todos), o sanhaço piando cedinho na janela do meu quarto, a Palmirinha e suas mãozinhas marcadas pela osteoporose indicando os caminhos para uma massa bem sovada, meu pai chegando como quem não quer nada e perguntando se é mesmo física que estou estudando, uau. O capricho com que a minha mãe rasga o alface pra salada, a bordinha do pastel amassada com garfo, o catavento que gira e gira com o vento de setembro, a arquibancada do Pacaembu tremendo ao ritmo do preto e branco. O barulho dos motores na Castello Branco que invadem minhas madrugadas, o ipê que nesse ano só floresceu em partes (que seja, foi uma metade de flores lindas), a vontade de um amigo apaixonadíssimo tentando explicar – imparcialmente, aham – o que é o amor, mother Mary aconselhando “let it be, let it be”. As patas dos filhotes sassaricando pelo quintal, pelo canteiro de bromélias e pelo quintal sujo de terra (sempre, sempre nessa ordem). A pizza das noites do sábado em família, as luzes da Paulista às duas da manhã, a generosidade daquele que, mesmo amando, prefere a saudade à dor.

Bonito.

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