Na gaveta

Mais uma carta pra série de coisas que escrevi e ninguém leu. Letras cansadas e gastas pela repetição. Linhas e linhas que buscam explicação pro que não aconteceu, pra chance negada, pra atitude derradeira incompreensível. O não dito nos tornou estranhos, distantes, frios. Confundidos, não nos reconhecemos nem em mais um olá. Um amontoado de palavras errantes, confessadas ao léu, no calor da hora, expulsas ao vento, roubadas de uma canção, de um filme, de um momento de saudade extrema. A profusão de eus no lugar de nós, de juras de ódio que, meu bem, não combinam com as juras de amor. Um grito calado abafado na gaveta. A carta que poderia ser substituída por um simples bilhete: “Adeus”.

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