Optativa

Quase março.

Menos amarelas, as noites revelam mais do que Cruzeiros do Sul e Três Marias. Fosse eu astronauta, tocaria numa dessas estrelas – mas desejando que elas imitassem a forma que adquirem quando vistas da Terra: convites a errantes confusos e (e ou) apaixonados.

Alternativa A.

Anti-pancadaria

Zapeando pelos canais de desenhos, me lembrei de um tempo em que a programação infantil tinha menos chute e mais sutileza.

Tinha Pat and Mat

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… a suavidade do Toki Doki

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…ah! E eu adorava  A minhoquinha que morava na maçã

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Pipi e Cuco era muito fofo…

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…e quando passava Plonsters então? Eu tentava fazer o mesmo com Super Massa…

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Gil & Julie era um dos meus favoritos…

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E, por fim, Fábula das Cores, que dispensa elogios…

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Velhos vizinhos

Lá na vizinhança é assim.

Cadeiras nas calçadas completam as tardes quentes com conversas sobre a vida de um e de outro. Qualquer um que passe com uma sacolinha do mercadinho ou da papelaria pára e diz, pelo menos, um oi.

Nas manhãs, velhinhos caminham, em casal ou em gangue. Os carros lá ainda são minoria e o caminho é quase sempre plano, o que facilita os exercícios para osteoporose e para alegria.

Famílias inteiras pedalam, enquanto outras pesseiam com seus cães nos finais de semana. A maior parte das casas conta com cachorros de raças grandes nos quintais.

No Carnaval, uma das ruas principais é fechada. As crianças vestem então suas fantasias e pulam ao ritmo de “foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu”. Um tapete de serpentina e confete.

Há quarenta anos, minha avó criava patos no quintal dos fundos. Há quinze, minha tia mantia um galinheiro. Hoje a dona Chiquita vende ovos frescos, a 4 reais a dúzia. Afinal, é no supermercado que as pessoas compram as aves – já prontas para o preparo.

Árvores frutíferas estão presentes na maior parte das casas. A Alzira, mulher do Paulo, nos presenteia com pencas de bananas, chuchus fresquinhos, abacates e mangas. Nós também fazemos nossa parte: na casa dela nunca falta acerola, nem carambola.

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pé de acerola no verão

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Celestial

Por assim dizer, os

…………………………………não……………………………………………..

………………….…não……………………………………………………………………

………………………………………….…não…………………………………..

voaram pra bem longe.

Vestibular

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Foi com certa desconfiança que encarei o curso de Letras da Universidade Federal de São Paulo.

Agora, tendo sido aprovada, me deu uma dorzinha no coração ter que desistir dele. O fato é que, de uma maneira ou de outra, vou tentar conciliar os meus planos B, C e D.

“Aproveita seu tudo enquanto você pode”, me disseram ontem.

Taí.

Saramago também é poeta

Não sabia que o Saramago também escrevia poemas, e foi por e-mail que recebi esse:

De Marília os sinais aqui ficaram,
Que tudo são sinais de ter passado:
Se de flores vejo o chão atapetado,
Foi que do chão seus pés as levantaram.

Do riso de Marília se formaram
Os cantos que escuto deleitado,
E as águas correntes neste prado
Dos olhos de Marília é que brotaram.

O seu rastro seguindo, vou andando,
Ora sentindo dor, ora alegria,
Entre uma e outra a vida partilhando:

Mas quando o sol se esconde, a noite fria
Sobre mim desce, e logo, miserando,
Após Marília corro, após o dia.

Sonetos atrasados é do livro Os Poemas Possíveis, de 1966.