Furtivamente

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.

C. Lispector, no conto Felicidade Clandestina


Acordei sem querer pensar muito, com medo de esgotar toda essa alegriazinha tímida.

Mudando

Bolacha é biscoito. Guarda-sol é barraca. Na praia, a bebida mais pedida é o Matte – com biscoito Globo, claro. O metrô é de superfície. No teatro, muita gente de chinelo (assim como na pizzaria, no cinema, no shopping). Lá não tem as marginais Pinheiros e Tietê, mas sim as linhas Amarela e Vermelha. Um pedágio de 4 reais separa a Zona Oeste da Zona Norte. Geral vai pra night, quase sempre pro funk (até as cocotas de Copa). Grandes cronistas vieram de lá, assim como grandes sambistas também. Noel Rosa, Cartola, Olavo Bilac, João do Rio. A banca de jornal tem Extra, O Globo, O Dia.

É pra lá que eu vou.

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O opaco

Zonas de silêncio nas quais as coisas não são ditas. As partes que não são contadas. Mais que isso: o que preferimos por calar. Esconderijo de sentimentos, de angústias, de sonhos. É o que em Sociologia se chamou de interdito. Não se trata de mera proibição. Pauta as normas sociais e, gatunamente, estabelece os limites.

Exemplo: dois novos velhos amigos cheios de novidades ligados a um passado forjado e a um presente reinventado com novas pessoas.

Biblioteca é passeio (e dos bons)

Gostoso mesmo é pegar livro emprestado na biblioteca.

Procurar por 1 em 20 mil exemplares. Vasculhar lombadas coloridas e capas remendadas. Lá no fundo da estante, no cantinho mais encondido, encontrar o dito cujo.

Sentir a textura das páginas já amassadas pelo manuseio, o cheiro de papel guardado, jogado na mochila, lido no metrô, passado de mão em mão.

Caso a edição seja antiga, notar as diferenças na tipografia de um tempo em que era tudo, digamos, mais artesanal. Letras voadoras no meio das palavras, parágrafos que deixam escapar uma sílaba ou outra.

Com muita sorte, ter a oportunidade de ler as anotações de outras pessoas.

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