O que é meu pra mim

Não, não. Apago tudo que já disse. Faz de conta que não existiu. Devolva também os abraços, os olhares olho no olho devotados de amor, toda espécie de carinho, até os mais descarados. Porque em cada uma dessas atitudes cabia um pouco de mim que hoje não sei mais onde está. Percebe? Não sei. Costumava gostar de mim do jeito que eu era, agora não mais. Do que eu gostava em mim mesmo? Era meu cabelo que ondula nas pontas, ou minhas palavras toscamente despejadas às pressas, ou meu impulso e minha sinceridade em relação à vida? Eu peço, devolva tudo. Devolva os dias em que acordei dormi tomei banho sonhei viajei tequilei jantei resfriei vesti você. Devolva agora, devolva meu tudo, devolva as coisas que em mim eu gostava. Porque antes eu era minha maior paixão, era caída de amores por mim, eu me achava apaixonante. Devolva minha vontade de acordar dormir tomar banho sonhar viajar tequilar jantar resfriar vestir eu mesma. Quero meus intocados olhares olho no olho devotados de amor, toda espécie de carinho, mesmo os mais descarados – deles também faço questão. Devolva esse tantinho de mim que está em você – que, a julgar pelo que falta de mim, é um tantinho mais pro ão -, porque é necessidade urgente descansar feito massa de pão pra crescer feliz e contente e livre e confiante e sair por aí com peito estufado com coragem de fazer outros tão felizes tão contentes tão livres tão confiantes como eu quis ter feito você.

Anúncios