30 de agosto

Pela manhã ventava muito. Minha mãe me disse, às 7h, que odiava dias de vento. “Eles trazem coisas ruins”, ela explicou. Eu respondi que não, que assim como eles trazem, também podem levar. Seis horas depois ela telefonaria dizendo que meu vô fora encontrado morto. Mas o tempo da morte não é o da ventania. O tempo da morte é parado.

Cabeças aéreas zanzam madrugada adentro. É a ficha não caída, o fingimento do desconhecimento dos fatos, a média tomada entalada na garganta. O café com leite desce devagar, como se desse pra sentir cada centímetro atravessado pela mistura quente. A chama da vela oscila em uma frequência que não é de vida.

Vida mesmo só nos abraços que chegam confortantes.

“Aí, teve um incêndio lá no Mato Grosso que matou 10 crianças. Não saiu em jornal nenhum!”. A última bronca que meu avô me deu.

Anúncios

2 pensamentos sobre “30 de agosto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s