Maria Clara, 4 anos

Ela passa a mão nas orelhas aveludadas do pastor alemão. Eu observo tudo. A mãozinha com medo, o sorriso de prazer.

“Ele tá sorrindo pra mim”

“Tá mesmo. Você gosta dele?”

“Gosto, ele é macio”

“É sim. Passa a mãe na barriguinha. Ele adora. Não precisa ter medo”

“Queria conversar com ele, mas ele não fala nada”

E, olhando pra ele:

“Porque você não fala comigo, Jimis?”

O nome dele é Jimi, mas na cabeça dela Jimis é mais bonito.

“Fala comigo…” Depois olhando pra mim: “Porque ele não fala nada?”

“Quantos anos você tem?”

E, contando os dedos, mostra que tem quatro.

“Então. Ele é bebê ainda. Você tem quatro, ele tem um e meio”

Ela não deve ter entendido a parte do meio, eu explico:

“Sabe a Alice, a sua irmãzinha? Ele tem a mesma idade dela. Ela não é bebê? Ele também. Por isso ele não fala. O que você queria conversar com ele?”

Apertando as bochechas peludas, responde:

“Queria dizer que ele parece um palhacinho”

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Preocupações

Lígia  diz: a gente podia ir na tequilada e nessa festa a fantasia que vc comentou que vai ter
Marília diz: sim mas eu tô com medo que seja no mesmo dia
Lígia  diz: é, pode ser…
Marília diz: queria ir nas duas
Lígia  diz: vamos esperar!
Marília diz: é
tô torcendo pra não ser nem dia 19 nem 26
19 vou viajar e 26 tem tequilada já
Lígia  diz: é, podia ser no dia 27
UHAUHAUHHUAHUAHUUHAAUH

Benditos

Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.

E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

Gibran Khalil Gibran