No muro

Era madrugada e quis escrever a carta mais sincera do mundo. Me deu vontade de escrever que quando dizem que escrevo bem estão repetindo uma farsa, que tudo é uma questão de sentir reto coisas tortas – no mais é saber encaixar conjunções aqui e acolá. E que meu sonho sempre foi que me pedissem pra ficar. “Eu preciso de você”, me diriam nesse sonho. “Preciso de você aqui. Muito, muito mesmo”. Ou que tivesse o Manuel Bandeira escrito que era eu em “Tu és minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero mais, com perdida volúpia, com desesperação e angústia…”. Eu acordaria rindo gargalhadas e chorando de alegria realizada. Diria na carta que eu gosto é de pertencer, que a ânsia verdadeira do homem é se sentir pertencido à alguma coisa – que essa é a finalidade da vida: ser dos outros tanto, tanto que já não se é mais seu. E assim que eu escrevesse essa frase na carta eu sentiria as maçãs do rosto pesarem e a garganta travando e os olhos começariam a embaçar – daí eu lembraria que, calma, isso é tristeza fingida (esse é mais um segredo de quem é metido a escrever – nem é bem segredo, porque um poeta já disse isso e melhor -: quem escreve finge).

Era manhã e havia escrito mentiras.