Me chama de Preta

Nordestina de João Pessoa, a dona Cícera passou por Belo Horizonte e por São Paulo antes de chegar em Osasco. Orégano era oréga, estômago era estrômbo, cinza era cinzo, freezer era frizo. Pra minha avó, a Heloísa, minha prima, era Iluísa. As duas netas mais novas, uma loira e outra morena: a primeira virou Branca, eu virei Preta. Como era bom ouvir ela dizer “minha Preta, toma um chocolate com leite”. Até hoje não gosto, mas do dela bebia até cinco litros, o dela era bom. Ela tinha a timidez de quem acha que se abrir a boca não sai coisa boa – costume de anos ouvindo as pessoas dizerem que o certo não é assim, é assado. Uma confusão danada entre sabedoria e estudo, mas que deixou comigo palavras que uso todo dia. Presepada, aperreada, adular, magoar, maneiro, saudade saudade saudade, cinco anos de saudade.