SACO.

Anúncios

Mandingas

Ganhei da minha cabeleireira uma corujinha de cristal. Ela diz que é pra dar sorte. Recomendou que eu a deixasse em uma imersão de água e sal grosso pra acentuar o efeito. Não sei se acredito, mas leio a previsão de Câncer todos os dias. E comprei um trevo-de-quatro-folhas também, que ainda está na casa da Lígia. Há três meses carrego uma pedra de ônix na bolsa. Passei a virada do ano de branco e vermelho: pra serenidade pra mim e pra parar de repetir “próximo próximo próximo”.

Dois anos

Certas coisas que eu gostaria te der escrito nos últimos dias soariam como declarações de amor. Estou lendo Virginia Woolf há dois anos. Minha maturidade emocional tende a zero. Parece que faltam conjunções pro Jornalismo. Preposições também. Eu cantava aquela musiquinha a de ante para contra por sob após perante entre com desde em depois sobre trás até per sem e até hoje não sei direito o que é o que. O mesmo com o alfabeto. Se, por exemplo, preciso lembrar se o “h” vem antes ou depois do “j”, não tenho outra opção senão sussurrar “e efe gê agá i jota… isso”. Não sei se é amor, não sei se é paixão, às vezes beira mais o ódio e o asco. Tem dois anos que não saio da mesma página 30. É uma mistura de dor e de asco, mas de saudade e quase sempre amor. Sinto que, se eu terminar de ler Mrs. Dalloway, o pouco que sobrou vai sumir com todo resto que já foi. “Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficava de fora, olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentia que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse”, ela escreveu. Em alguns dias, sou declaração de amor.

Pra quem tem coragem, tem em inglês.

Mentira

Já terminaram comigo com a justificativa de que “ninguém é insubstituível”. Mentira.

As pessoas só são substituíveis quando a gente se reinventa ou finge que mudou de gosto ou faz de conta que determinado perfume não agrada mais.

No fundo, dizer que “ninguém é insubstituível” é a maior mentira já contada.

Substituir alguém não é fácil: é preciso mudar de lado no ônibus, evitar uma esquina, mudar a marca do desodorante, preferir goiabada à geleia de frutas vermelhas, deixar de beber certa cerveja.

Pra substituir alguém, uma pessoa novinha em folha tem que ocupar o lugar dela. É um trabalho interno, de se querer mais do que querer o outro.

Com o tempo, cada um vai se tornando substituível: mas só porque a gente inventa que a pessoa não tinha as qualidades que de fato tem.

Aí, uma hora, do nada, esquecendo que você um dia gostou do jeitinho que a pessoa inclinava a pessoa na hora de contar sempre a mesma piada, o celular vibra e você murcha porque o SMS é do substituído.