Dois anos

Certas coisas que eu gostaria te der escrito nos últimos dias soariam como declarações de amor. Estou lendo Virginia Woolf há dois anos. Minha maturidade emocional tende a zero. Parece que faltam conjunções pro Jornalismo. Preposições também. Eu cantava aquela musiquinha a de ante para contra por sob após perante entre com desde em depois sobre trás até per sem e até hoje não sei direito o que é o que. O mesmo com o alfabeto. Se, por exemplo, preciso lembrar se o “h” vem antes ou depois do “j”, não tenho outra opção senão sussurrar “e efe gê agá i jota… isso”. Não sei se é amor, não sei se é paixão, às vezes beira mais o ódio e o asco. Tem dois anos que não saio da mesma página 30. É uma mistura de dor e de asco, mas de saudade e quase sempre amor. Sinto que, se eu terminar de ler Mrs. Dalloway, o pouco que sobrou vai sumir com todo resto que já foi. “Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficava de fora, olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentia que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse”, ela escreveu. Em alguns dias, sou declaração de amor.

Pra quem tem coragem, tem em inglês.

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