Pedrinho, 4 anos

“Me lembe! Me lembe”, dizia gargalhando gostosamente. “Me lembe, Aurera!”. Aurera era Orelha, que na verdade era só Jimi, meu pastor alemão mais carinhoso. Ele e o Pedro pareciam ter se entendido, mas Pedrinho insistia em dizer que preferia a “cachorra que dormia embaixo do carro”, porque ela não “lembia”.

Foi até a sala de estar, pegou um aparelho de telefone fora de uso e disse que ligou para o pai: “Oi, papai! O Aurera fica me lembendo”, dedurava em meio a gargalhadas deliciosas e felizes. “Fui na casa da tia Zanza também. Lá tinha um tartarugo gigrante”.

Domingo de passeio com o avô.

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Gaiola

De vez em quando olho a gaiola do Gabriel só pra saber se ele está vivo. O Gabriel é nosso canário amarelo acinzentado e tem esse nome porque há uns cinco anos, acho, durante os festejos da virada do ano, ele se assustou e caiu da gaiola, mas sobreviveu. E ele, que até então não tinha um nome, recebeu a alcunha do anjo.

De certa forma, a gaiola é uma moradia segura: sempre com água e comida, alimentando o corpo. Mas o resto, como é que fica?

Ele não voa.

Mandingas

Ganhei da minha cabeleireira uma corujinha de cristal. Ela diz que é pra dar sorte. Recomendou que eu a deixasse em uma imersão de água e sal grosso pra acentuar o efeito. Não sei se acredito, mas leio a previsão de Câncer todos os dias. E comprei um trevo-de-quatro-folhas também, que ainda está na casa da Lígia. Há três meses carrego uma pedra de ônix na bolsa. Passei a virada do ano de branco e vermelho: pra serenidade pra mim e pra parar de repetir “próximo próximo próximo”.