Aperta

A saudade aperta aí você pensa na hidratação do cabelo, na prova de Processo Civil, na coluna da semana. Pensa na unha com o esmalte lascado e por fazer, na metade de cidade que você precisa vencer pra chegar no evento, na festa de sexta. Pensa na fonte que ainda não respondeu o e-mail, no presente de aniversário do afilhado, na amiga que terminou com o namorado. A saudade aperta e você pensa no trabalho de Civil, no resumo de Constitucional, no vergonhoso dois em Empresarial, nas duas reportagens que precisa fechar. Aperta mais e você pensa no cara de sábado que não ligou, no outro que não respondeu o SMS, nos dois quilos a mais na balança, na aula assistida pela metade mais uma vez. Se sufoca, pensa de novo nas luzes e pontas ressecadas, remói o dois de Empresarial, emenda bar após bar. A saudade aperta? Pensa no sábado de sol recheado com um plantão, lembra dos olhos de outro, esquece as músicas bonitas. Aperta e você corta o cabelo, emagrece quatro quilos, tira nove em Empresarial, escreve três colunas na semana. A saudade aperta.

Gaiola

De vez em quando olho a gaiola do Gabriel só pra saber se ele está vivo. O Gabriel é nosso canário amarelo acinzentado e tem esse nome porque há uns cinco anos, acho, durante os festejos da virada do ano, ele se assustou e caiu da gaiola, mas sobreviveu. E ele, que até então não tinha um nome, recebeu a alcunha do anjo.

De certa forma, a gaiola é uma moradia segura: sempre com água e comida, alimentando o corpo. Mas o resto, como é que fica?

Ele não voa.