Duas vidas

Aos sete anos, eu amava ler. Passava horas deitada na cama, lendo, lendo, lendo, sentada na sala, lendo, lendo, lendo. Eu amava sol. Amava brincar de boneca. Amava brigar com os meus irmãos mais novos.

Eu, meu pai e meu irmão do meio

* * *

Estávamos no cruzamento da Dona Veridiana com a Itambé, Higienópolis. 23h10. Com apenas um pé calçado, uma aluna do Mackenzie – mesma universidade onde estudo – trazia uma garota mirradinha, negra, suja, que deveria ter, no máximo, oito anos.

“Meu pai é juiz! O que pode me acontecer, hein?”, bradou antes de desferir um tapa no rosto da menina. A estudante, visivelmente alterada pelo álcool. A criança, dopada, talvez pelo crack, consumido por muitas das crianças que moram na Santa Cecília, bairro vizinho ao campus.

A confusão acontecia em frente ao mercado Pão de Açúcar que fica no cruzamento das duas ruas. A estudante jogou a menina na grade que cerca o estabelecimento.

“Me larga, você tá me machucando!”, pedia a menina.

“Não vou te largar! Você roubou meu notebook, roubou meu Iphone! Seus amigos fugiram, mas você não vai se safar”

Começaram a se passar diversas teorias papelescas e bonitas pela minha cabeça.

“Solta a menina!”, gritei, para depois meus amigos se juntarem a mim.

“Não, ela me roubou”, respondeu a mackenzista.

“Mas você não tem o direito de bater nela!”

Uma mulher, que também observava perplexa, se juntou ao lado da minoria que pedia não. “Você não pode bater nela! Ela é protegida pelo ECA”, explicou.

“A lei existe justamente pra ninguém precisar bater ninguém na rua”, disse eu.

Nada. As pessoas não sabem separar as coisas. Nem tudo é por maldade, nem tudo é por bondade, em ambos os lados.

Minhas amigas começaram a repetir palavras também bonitas, aprendidas durante os quase dois anos do curso de Direito. Teve quem falasse em “autotutela”, em “Estatuto da Criança e do Adolescente”, em “incitamento ao crime”, em “abuso de autoridade”. Tudo no papel.

Teve também quem repetisse frases já conhecidas, como “é por causa de pessoas como vocês que existem crianças que usam drogas”, ou como “queria ver se fosse seu Iphone o roubado”, ou como “tem que bater mesmo! se não concorda, vai embora”.

E eu pensava em outro milhão de coisas, grande parte aprendida em sala de aula. Pensei em “carteirada”, em “você sabe com quem está falando”, em “vida como maior bem jurídico”.

Duas vidas.

Meia hora se passou com a estudante segurando a menina pelo colarinho da camiseta rala.

E ela perguntava pra menina se ela sabia o que era acordar às 5h da matina e ir dormir, todo santo dia, depois da meia-noite, ora pois.

Sobre poder estudar, poder trabalhar, poder dormir as cinco horas, que sejam, numa cama quentinha, tudo isso ela não perguntou.

A pequena – e esse pequena não é de dó, que tenho, sim, confesso, mas porque a pequena era pequenininha mesmo – não parava de chorar.

A polícia chegou e a vitima do roubo, que estuda numa das principais faculdades de Direito do país, pedia chorando: “Policiais, dêem uma dura nela, por favor”.

* * *

E se o Direito não funciona? Está tudo bagunçado demais. Como a gente faz?

* * *

Aos sete anos, eu amava ler, amava o sol, amava brincar de boneca.

pequeno manual da rotina

título duas palavras

título 70 toques

título 50 toques

texto desembargador advogado habeas corpus texto vítima texto réu testemunha texto vara cível texto stj texto texto texto texto falência texto texto direito de resposta juiz mandado de segurança texto impetrar proferir supremo texto parlamentar texto autos texto custas processuais texto texto texto supremo tribuanal tribunal tributo texto decisão texto casa câmara teto ajuizar carecer implicar texto acusar inocentar texto periculum in mora texto texto diligências promotor de justiça doutor texto texto ad infinitum

Vestibular

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Foi com certa desconfiança que encarei o curso de Letras da Universidade Federal de São Paulo.

Agora, tendo sido aprovada, me deu uma dorzinha no coração ter que desistir dele. O fato é que, de uma maneira ou de outra, vou tentar conciliar os meus planos B, C e D.

“Aproveita seu tudo enquanto você pode”, me disseram ontem.

Taí.