Vernáculo

Dois amigos sentados atrás de mim, conversando no ônibus.

“Você quer Engenharia, né? Vai mudar pro interior? Lá tem umas faculdades legais…”

“Ah, não, não vou… sempre gostei muita da metrópole. Sou um metrossexual.”

E ele não falou brincando.

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A criança no colo

Aproximou-se com passos curtos. Podia-se de longe imaginar claramente o tec-tec-tec de seu arrastar. Os pés rachados e as unhas encardidas denunciavam aquela mãe. Cansada da vida, carregava a criança como um fardo. Revogara de seu direito de ser mulher para tornar-se apenas: mãe. Os cabelos desgrenhados, um soslaio triste e amarelado. E a criança, destoante por inteira de sua mãe. Afinal, não combinava com ela. A mulher não carregava consigo o dom e nem a certeza da maternidade.

A criança no colo da mãe não parecia estar confortável. Olhava assustada para todos que atravessavam seu infantil campo de visão. Seu olhar que não parecia com o de uma criança, mas sim de um adulto já malhado pela vida. Um olhar de quem espera pela morte. A menininha chegara ao cúmulo de observar um rapaz por quinze minutos ininterruptos, fazendo uma pequena pausa apenas para ajeitar a chupeta na boca. Até isso, arrumar uma chupeta, tarefa tão maternal, a criança tinha que fazer sozinha, com toda a sua experiência de seis ou sete meses de vida.

Paradas ali, mãe e filha pareciam carregar toda a tristeza com elas. Em um momento singular de atenção, a mãe deu sinal para o Vila Piauí que chegava. Subiu no ônibus.  

800 convidados? E nem me chamaram…

Fez o sinal para o ônibus, o que só acabou por ressaltar um relógio que faria inveja ao Fausto Silva.

“Esse ônibus passa nesse endereço?”

“Hum, deixa eu ver… passa sim, em frente ao Residencial Três.”

“E como eu faço? Dá pra pegar outro ônibus?”

“Não. Você desce na portaria e vai a pé… onde você vai? É casa?”

“É, eu vou na casa de um cara pegar uma roupa pra eu ir na festa da Dercy Gonçalves…”

“Ah…”, foi o que saiu da boca do motorista.

Pré-conceito

Eu e Elisa no ponto de ônibus, como sempre. De repente, um rapaz simpático se aproxima e pergunta “deixa eu ver esse livro?”. Claro, emprestei o livro. “Shakespeare, que legal. É do Harold Bloom. Sabia!”. Miro os olhos de minha amiga, que vai enrusbecendo. “Sabia que foi o Shakespeare quem inventou a expressão carta de amor? Pois é!”. Minha amiga diz “nossa, ele é quase um Guimarães Rosa”. “Ah, não”, ele responde, “Guimarães Rosa não presta. Vocês já leram Grande Sertão: Veredas?”. “Não, mas vamos ter de ler”. “Então”, emendou empolgadíssimo, “só lê quem é pseudo-intelectual, as pessoas ficam andando por aí porque é um livro longo”. Contrariadas, protestamos com um “claro que não, é muito bom!”. Mas nada adiantava, ele não parava de exaltar a obra do dramaturgo inglês. “Só me lembro das duas primeiras palavras do Grande Sertão: nonada“. “Ah”, respondem as duas. “Vocês já leram um livro chamado As 100 Personalidades Mais Influentes da História?”. “Não, ainda não”. “Então, dizem que na verdade ninguém sabe quem foi Shakespeare, um homem não poderia ter sido tão inteligente como ele foi”.

Caso você esteja interessado em discutir Macbeth ou Romeu e Julieta, pode encontrá-lo nas proximidades do número 900 da avenida Paulista. Fomos descobrir depois que esse rapaz simpático é vendedor de balas e de goiabinhas da Bauducco a cinquenta centavos cada.

Quem não quis ser um avestruz um dia?

Meio-dia. Ponto de ônibus do número 900 da Paulista lotado. Muitos alunos do Objetivo fazendo uma social.

Eu no ponto. Um senhor desbocado ao meu lado.

Alphaville 12, meu busão, chega depois de intermináveis vinte minutos de espera.

Senhor desbocado.

Eu na fila para entrar no busão.

“Olha lá, só executivo. Isso é um absurdo. Esse país é uma merda. Só os executivo [sic]. Eles lá, no ar-condicioando e a gente aqui, no coletivo. Só executivo. Só metidinho. E a gente no coletivo… [repetição de ‘só executivo’ umas trinta vezes mais]”.

Tem vezes que eu daria tudo para ser um avestruz.

Considerações sobre o busão

Vidro fechado com chuva é uma beleza. Ainda mais dentro de um ônibus. Acrescente umas sessenta pessoas espremidas dentro dele e a sauna está completa. O cheiro fica insuportável e, mesmo com uma temperatura de dezesseis graus, o calor atinge níveis dignos de uma savana africana. O pior de tudo: muitas pessoas fingem que estão dormindo e, embora o assento tenha inscrições especificando que ele é reseravdo, ninguém mexe uma palha. Idosos, gestantes e deficientes físicos são tratados com indiferença.

Não bastasse tudo isso, ainda permitem que pessoas bizarríssimas adentrem o veículo. Eu tenho o raro dom de escolher meu lugar ao lado desses seres. Já me sentei no mesmo banco de um homem que não parava de dar altas gargalhadas. Eu senti minha bochecha quente, mas fui firme e fingi que não tinha me dado conta do ocorrido. Mas ontem foi muito, muito estranho. Ao meu lado havia uma rapaz lendo um livro intitulado Introdução à Fenomenologia. A pequena introdução devia ter, no mínimo, umas seiscentas páginas. Não consegui anotar o nome do autor do calhamaço. Uma pena, logo hoje que eu ia até Fnac comprar o tal livro. Deixa pra próxima.

Essas coisas só acontecem comigo

Odeio casalzinhos se beijando perto de mim. Não, não é dor de cotovelo, eu juro. O problema é que eles não conseguem se beijar sem fazer aqueles barulhinhos horríveis.

Hoje mesmo, enquanto esperava meu ônibus (que por sinal demorou quarenta minutos para passar), sem fazer mal para ninguém, quieta, respirando todo dióxido de carbono que me era arremessado no rosto sem reclamar, um casal vem e senta ao meu lado.

Ploc, ploc… (barulho de pessoas se beijando)

“Ai, amor, sua orelha tá mais magra…”.

Abre parênteses: Como o sujeito percebeu que a garota tinha emagrecido só de beijar a orelha dela ainda é um mistério para mim. Não, porque a garota deveria ter sido muito, mas muito gorda mesmo pra ele perceber isso.

“É”, ela respondeu, “vê se você faz uma dietinha também…”

Quando cheguei em casa, fui logo olhar no espelho pra ver se minha orelha estava muito gorda. Eu constatei que ela estava normal. E a dieta, deixa pra segunda-feira.