Gatunice

A cada nova mensagem, eu precisava pensar direitinho qual seria a próxima a ser deletada. Com capacidade para 200 sms’s, meu celular comportava uma série de pequenos carinhos escolhidos a dedo. De alguns lembro de cor:

Marilinha (L)

Parabéns! Já acreditava no seu potencial! Beijo. Mãe

Bar? Tijolos Verdes?

Fofa, fofa! Te adoro!

Se não for pra aula, me dá um toque que a gente faz alguma coisa. Muita chuva!

Tinha foto também:

Do pé-direito e a mini-rosa amarela sobre a mesa.

De duas tulipas de Heineken numa padaria.

Da pichação no muro, entre a Consolação e a Paulista, com o famosinho haikai do Leminski: “Haja hoje para tanto ontem”

Um ladrão veio e roubou tudo.

A foto que eu não tirei

A foto que eu não tirei não seria única. Todos os dias, dentro de nossos automóveis, vemos cenas como a que eu poderia ter fotografado, mas que não fotografei.

A foto que eu não tirei poderia tomar ares de denúncia, mas, pensando bem, não sei se tomaria de fato. No nosso mundo, uma imagem, muitas vezes, é só mais uma imagem. Essa não seria mais do que isso.

A foto que eu não tirei, nas páginas policiais, talvez tivesse apenas iniciais e um número entre vírgulas e a legenda: J. S., 9, e sua inseparável latinha de cola.

A foto que eu não tirei mostraria um menino de rua embaixo do viaduto. Aquele viaduto era a sua casa. Ela era composta por um carrinho desses de sucata feito de madeira, que improvisava uma cama. Sobre ela, um colchão velho e um cobertor ralo. As três peças formavam o quarto daquela criança.

A foto que eu não tirei mostraria uma inscrição no muro em letras grandes e cinzas. “Mãe, estou na rua de novo”, aquelas palavras diziam. Quem teria escrito aquilo? O menino, pedindo por socorro? Saberia o menino ler? Pintadas ali, naquela cidade grande e muitas vezes inimiga, elas não tinham nada de desconexo. Mas ninguém reparou. Ou preferiu não reparar.

A foto que eu não tirei não é essa