Gatunice

A cada nova mensagem, eu precisava pensar direitinho qual seria a próxima a ser deletada. Com capacidade para 200 sms’s, meu celular comportava uma série de pequenos carinhos escolhidos a dedo. De alguns lembro de cor:

Marilinha (L)

Parabéns! Já acreditava no seu potencial! Beijo. Mãe

Bar? Tijolos Verdes?

Fofa, fofa! Te adoro!

Se não for pra aula, me dá um toque que a gente faz alguma coisa. Muita chuva!

Tinha foto também:

Do pé-direito e a mini-rosa amarela sobre a mesa.

De duas tulipas de Heineken numa padaria.

Da pichação no muro, entre a Consolação e a Paulista, com o famosinho haikai do Leminski: “Haja hoje para tanto ontem”

Um ladrão veio e roubou tudo.

Tolerar

to.le.rar
(lat tolerare) vtd 1 Levar com paciência, suportar com indulgência: Toleravapacientemente o mau gênio da esposa.vtd 2 Condescender com; dissimular certas coisas, sem no entanto as consentir expressamente, uma vez que não sejam lícitas: Tolerava aquelas ações repulsivas. vtd 3 Permitir o livre exercício de (crenças ou cultos religiosos). vtd 4 Admitir, dar tácito consentimento a: “…Floro Bartolomeu… menos afeito a tolerar certos excessos de fanatismo dos romeiros” (Lourenço Filho). vtd 5 Med Assimilar, digerir, suportar: O doente não tolerou o medicamento. vpr6 Suportar-se: Davam-se bem outrora; hoje não se toleram.

Tolerar é tender ao limite. Palavra feia.

Suspenso

E pela lei natural dos encontros. Essa palavra não existe. Existe, sim. Para existir, basta ser dita. Eu deixo e recebo um tanto. É nada. Claro que sim, é como o sonho. E passo aos olhos nus. Zubalumi, cabotavo, chomerá. O sonho? É. Ou vestidos de lunetas. É independente, não precisa de mais nada pra existir. Orquídea na piscina, bola de ambrosia, caco inteiro. Não é…. sonho com várias coisas, mas nenhuma delas acontece! Sonho realizado é realidade, deixou de ser sonho. Passado, presente. Participo sendo o mistério do planeta.

O falso esperto

O falso esperto se acha esperto porque sabe a diferença, sei lá, entre seção, sessão e cessão.

Papiloscopista, cosmologia, paquiderme, arcabouço, mesóclise.

O falso esperto se acha mais esperto que os outros porque ele está, oh!, acima de tudo.

Tanatologia, principiologia, endometriose, liliputiano, cauliforme.

O falso esperto fica feliz com qualquer passo em falso do outro, mesmo que falso.

Pacta sunt servanda, calipígio, exegese.

O falso esperto torce por isso – ansiosamente.

Me chama de Preta

Nordestina de João Pessoa, a dona Cícera passou por Belo Horizonte e por São Paulo antes de chegar em Osasco. Orégano era oréga, estômago era estrômbo, cinza era cinzo, freezer era frizo. Pra minha avó, a Heloísa, minha prima, era Iluísa. As duas netas mais novas, uma loira e outra morena: a primeira virou Branca, eu virei Preta. Como era bom ouvir ela dizer “minha Preta, toma um chocolate com leite”. Até hoje não gosto, mas do dela bebia até cinco litros, o dela era bom. Ela tinha a timidez de quem acha que se abrir a boca não sai coisa boa – costume de anos ouvindo as pessoas dizerem que o certo não é assim, é assado. Uma confusão danada entre sabedoria e estudo, mas que deixou comigo palavras que uso todo dia. Presepada, aperreada, adular, magoar, maneiro, saudade saudade saudade, cinco anos de saudade.

Mais um dia feliz

Ganhei um bombom de chocolate meio amargo que veio da Itália. Quando desembrulhei o papel laminado, surpresa!, uma figurinha linda veio com o chocolatinho. A mensagem, em 5 línguas, também era fofa: “O amor sabe esperar lá onde a razão desespera”.

* * *

Descobri uma música da Maria Rita tão bonita. É calma de dar sono, mas é bonita. “Calma/ Dê o tempo ao tempo, calma/ alma/ Põe cada coisa em seu lugar// E o dia virá, algum dia virá/ Sem aviso/ então…”. Que voz.

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Um também canceriano com ascendente em peixes me indicou um conto do Caio Fernando Abreu pra ler. E eu, que sempre tive um certo preconceitozinho em relação ao escritor, li. Bonito o texto.

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Comecei a ler um livro da Clarice Lispector. É uma coletânea de textos que ela escreveu em diversas fases da vida: jornalista, menina-moça, estudante de Direito. Aaaaaaiai. Sou suspeita em falar dessa mulher. Como ela diz em uma das entrevistas do livro, “É isso sim. Fico olhando, bobando…”.

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Tudo que preciso pra um dia feliz são as palavras certas.

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L’amore sa sperare quando la ragione già dispera

Love can hope where reason would despair

El amor tiene esperanza allí donde tu razón desespera

L’amour peut espérer là où la raison désespère