Me chama de Preta

Nordestina de João Pessoa, a dona Cícera passou por Belo Horizonte e por São Paulo antes de chegar em Osasco. Orégano era oréga, estômago era estrômbo, cinza era cinzo, freezer era frizo. Pra minha avó, a Heloísa, minha prima, era Iluísa. As duas netas mais novas, uma loira e outra morena: a primeira virou Branca, eu virei Preta. Como era bom ouvir ela dizer “minha Preta, toma um chocolate com leite”. Até hoje não gosto, mas do dela bebia até cinco litros, o dela era bom. Ela tinha a timidez de quem acha que se abrir a boca não sai coisa boa – costume de anos ouvindo as pessoas dizerem que o certo não é assim, é assado. Uma confusão danada entre sabedoria e estudo, mas que deixou comigo palavras que uso todo dia. Presepada, aperreada, adular, magoar, maneiro, saudade saudade saudade, cinco anos de saudade.

Ai, como dói

Ele te tira pra dançar, a dança encaixa. O papo é bom. Ele é bonitinho, dá até pra passear de mão dada no shopping, você pensa. Você passa seu telefone pra ele, óbvio, e não o contrário. Dias depois, um sms: “Bateu saldade”.

É, Deus ri da sua cara.

Mais um dia feliz

Ganhei um bombom de chocolate meio amargo que veio da Itália. Quando desembrulhei o papel laminado, surpresa!, uma figurinha linda veio com o chocolatinho. A mensagem, em 5 línguas, também era fofa: “O amor sabe esperar lá onde a razão desespera”.

* * *

Descobri uma música da Maria Rita tão bonita. É calma de dar sono, mas é bonita. “Calma/ Dê o tempo ao tempo, calma/ alma/ Põe cada coisa em seu lugar// E o dia virá, algum dia virá/ Sem aviso/ então…”. Que voz.

* * *

Um também canceriano com ascendente em peixes me indicou um conto do Caio Fernando Abreu pra ler. E eu, que sempre tive um certo preconceitozinho em relação ao escritor, li. Bonito o texto.

* * *

Comecei a ler um livro da Clarice Lispector. É uma coletânea de textos que ela escreveu em diversas fases da vida: jornalista, menina-moça, estudante de Direito. Aaaaaaiai. Sou suspeita em falar dessa mulher. Como ela diz em uma das entrevistas do livro, “É isso sim. Fico olhando, bobando…”.

* * *

Tudo que preciso pra um dia feliz são as palavras certas.

* * *

L’amore sa sperare quando la ragione già dispera

Love can hope where reason would despair

El amor tiene esperanza allí donde tu razón desespera

L’amour peut espérer là où la raison désespère

Lindas!

letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras letras

Conflito

Quem dera conseguisse ter a objetividade de dizer assim “hoje o dia foi quente”.

Ao contrário.

Digo que o dia foi quente mas que aqui dentro fez inverno glacial porque ainda não cruzei com seu olhar, que todas as estações do ano pareciam a cidade de São Paulo num dia, que a confusão era tão grande que pra dizer que caiu água do céu não bastaria dizer que geou que chuviscou que garuou que caiu um pé d’água daqueles. Era preciso inventar palavras novas, termos que inaugurassem uma nova categoria de emoções, de quereres, de vontades.

* * *

“Só o que sinto explica o que faço” (Helena Kolody)

* * *

Quem dera conseguisse ser objetiva ao ponto de dizer que apenas quero como nunca quis.

Ao contrário.

Digo que ao cruzar com seu olhar é preciso inventar um novo sol que dê conta de tanta luz, que explique cada estrelinha que surge no céu mesmo durante o dia, que então a garoa é fina mas não tem esse nome, é agora um tipo de chuva feliz, que pode fazer um inverno glacial que eu não sinto frio, mesmo com geada ou chuvisco ou garoa ou pé d’água daqueles.