Quem com ferro fere

O primeiro que manifestou seu amor por mim escreveu numa folha de caderno, vergonhosomente dobrada e posta sob a minha carteira, a frase “I am love you”. “É só ‘I love you'”, corrigi plena de desdenho.

Desde então, maltrato os corações que ousam gostar de mim.

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Minha mãe conta que no dia estava tocando Balão Mágico no vizinho

Esse é o dia no qual as pessoas me cumprimentam com um sorriso sarcástico e pensam “Rá! O tempo também está passando para você, danadinha!”.

Vinte e dois anos. Não sei, mas sempre me vem à mente a imagem de dois patinhos de borracha na banheira da criança chorona.

O desconhecido, temi

A hora era chegada. Algo me impelia pra frente, uma força vital e orgânica vinha de dentro. Embora acostumada com o ambiente, úmido e acolhedor, sabia que não poderia mais continuar ali. Caso contrário, acomodada já à situação na qual me encontrava, morreria. Uma vontade e, sobretudo, uma necessidade de seguir impulsionava para uma nova fase. Despedia-me de minha morada confortável e abandonava uma segurança que nunca mais teria. Ia à busca do desconhecido.

Rompia, dessa forma, mais que uma barreira física. Conforme a transpassava, um turbilhão de emoções e de sensações me encontrava desprevinida. Aquela carne não era apenas meu abrigo dos últimos meses. Vez ou outra era possível ouvir uma voz que atravessava a parede e cantarolava em ecos uma canção de carinho e de amor. Ali era morada do come-e-dorme certo de todos os dias, um porto-seguro que não cobrava nada em troca de amparo.

A claridade se fazia cada vez mais forte. Ofuscava os olhos à medida que revelava o nunca antes visto. Não era mais a voz terna de outrora, mas sim lacônicos sussurros que envolviam a atmosfera. Uma segunda carne, diferente da que estava habituada, me puxou com veemência. Passei por camadas de pele, gordura e pêlo. Tudo pegajoso, mas de uma vibração pulsante. Embora a luz agora deslumbrasse os olhos, ainda assim temia.

Depois do meu primeiro choro, que viesse a vida.

Revival de infância

Gostinho de coisa boa, de bolo de fubá na casa da vó, de dedão do pé machucado no quintal de tanto correr, de tardes com guache de potão no dedo e papel crepon fazendo fantasia na festa do fim do ano, de barra-manteiga, menino-pega-menina e polícia e ladrão, de tarde de domingo na casa da tia, os primos mais velhos puxando seu cabelo e eu na risada mais gostosa do mundo, de livros e livros do Ziraldo, de sexta-feira do brinquedo e sonhos e sonhos e sonhos e sonhos…

Ioiô

A lembrança mais remota que tenho da minha presença no mundo está ligada também a primeira vez que me senti realmente sozinha. Foi em uma noite de sábado seca e quente que eu me dei por gente, em mais um daqueles momentos onde a dor vem acompanhada por uma consciência espinhosa e fria.

A pizzaria ficava a um quarteirão de casa e minha mãe havia provavelmente pedido uma “meia frango com catupiry, meia quatro queijos”, como de costume. Eu devia ter então uns quatro anos de idade. A única coisa que me lembro com exatidão é do momento que eu e minha curiosidade infantil nos dispersamos por entre pernas com canelas finas à mostra – dada minha altura, a perspectiva da cena que me vem à cabeça é exclusivamente essa -, abandonando, dessa forma, o patriarca da família. Todas aquelas pernas desconhecidas, um andar arrastado e alheio. O inesperado, o medo, a aflição de não voltar para casa.

Os sentimentos da infância ficam em um ir-e-vir quando crescemos.

“TERÇA-FEIRA, DEPOIS DA UMA DA TARDE”,

escrevi bem forte com caneta bic azul. Seu telefone só faz chamadas, não recebe. Sua casa não tem o mesmo brilho de outrora. Uma atmosfera estranha toma conta do lugar. É casa de gente antiga, velha, idosa, como queiram. O fato é que não consegue se lembrar de tomar o tal do remédio pra memória. Conta com detalhes do tempo em que era menina de Ribeirão Preto e de quando seu cabelo era, assim, “cheio de ondas”, mas não recorda de coisas que lhe foram ditas cinco minutos antes. Sofre por esquecer dos aniversários dos netos, da carteira de identidade que lhe dá direito ao passe livre no ônibus, do preço do pãozinho, de que precisa de ajuda.

Terça-feira é hoje. Já passou da uma da tarde, é quase três. Minha avó esqueceu de novo. Mais um daqueles momentos em que nos sentimos impotentes.