Mais um dia feliz

Ganhei um bombom de chocolate meio amargo que veio da Itália. Quando desembrulhei o papel laminado, surpresa!, uma figurinha linda veio com o chocolatinho. A mensagem, em 5 línguas, também era fofa: “O amor sabe esperar lá onde a razão desespera”.

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Descobri uma música da Maria Rita tão bonita. É calma de dar sono, mas é bonita. “Calma/ Dê o tempo ao tempo, calma/ alma/ Põe cada coisa em seu lugar// E o dia virá, algum dia virá/ Sem aviso/ então…”. Que voz.

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Um também canceriano com ascendente em peixes me indicou um conto do Caio Fernando Abreu pra ler. E eu, que sempre tive um certo preconceitozinho em relação ao escritor, li. Bonito o texto.

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Comecei a ler um livro da Clarice Lispector. É uma coletânea de textos que ela escreveu em diversas fases da vida: jornalista, menina-moça, estudante de Direito. Aaaaaaiai. Sou suspeita em falar dessa mulher. Como ela diz em uma das entrevistas do livro, “É isso sim. Fico olhando, bobando…”.

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Tudo que preciso pra um dia feliz são as palavras certas.

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L’amore sa sperare quando la ragione già dispera

Love can hope where reason would despair

El amor tiene esperanza allí donde tu razón desespera

L’amour peut espérer là où la raison désespère

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Pedaços

Te reencontrei no desodorante, na música do Cartola que ouvi enquanto tomava banho, na pimenta que arde a comida, no chocolate meio amargo, na camisa listrada da vitrine. Até na lata de bala que ganhei um dia na Augusta e na entrada do show do 12 de junho com a qual, por um acaso, me deparei na caixinha das boas lembranças, você estava. E, passando a pé pelo ponto de ônibus, gritaram um time que fez eu pensar em ti com aperto no peito que, juro, Deus!, não quero mais nessa vida, não. Tropeço em você em cada seriado, em cada teclinha do controle remoto que você furtivamente jogava no meu colo quando alguém se aproximava. A viagem que quero há muito tempo, mesmo que você não esteja lá, também vai ser uma forma de encontrar seu espaço em mim. Vejo você até quando me olho no espelho, assim como a gente faz quando não está olhando pra gente mesmo – a hora do olhar desviando pra dentro: pra alma. Percebeu que os ventos por aqui já estão mudando? Ontem fez uma tarde linda, naquele céu laranja e rosa que não é mais tanto céu de inverno. Veio uma brisa boa, que trouxe à memória finais de tarde de setembro com telefonemas esperados e sorrisos de orelha a orelha pelo resto da noite. Senti a primavera já, embora ainda seja agosto. 7 de agosto. Tive uma primavera inesquecível, que começou mais cedo e com a mesma blusa que o dia de antes de ontem terminou. A blusa que agora tem seu cheiro e é todinha você – nela também vi pistas do seu caminho que em algum momento de sorte coincidiu com o meu. A calça também era a mesma do dia em que mais amei um pedido de desculpa. Apesar de a roupa ser igual, tudo insiste em ser diferente demais. Não tenho mais as pessoas com quem eu costumava contar próximas de mim. O moço do filme falava assim pra garota que ele amava: “Hoje vi quinze pares de olhos, mas meu dia não começou enquanto eu não vi os seus”. Seus olhos sob a luz da lua.

Agora que sei de cor onde te reencontrar, te perdi.

Dizer de cor vem de dizer de coração.