Onde escrevi o nome da minha vó

As quatro sílabas do nome agora estão escritas na camisola, no pijama rosa de deseinho de sapo com coroa, nas três calças de moletom e nas cinco calcinhas. Faz frio, então tive que escrever ainda em cinco pares de meia. Também escrevi o nome dela em quatro mudas de blusa dessas bem levinhas que o tecido não amassa e que as senhorinhas amam tanto. As letras estão ainda em: um shampoo, duas caixinhas de sabonete, um tubo de pasta de dente, na escova de dente, na touquinha de banho, na toalha de banho verde que era minha mas que ela insiste em dizer que é dela. O nome de quatro sílabas da minha vó também foi na mala, nem muito grande nem muito pequena. O cobertor que viajou com ela talvez não esquente o suficiente e será preciso providenciar um outro. Lençol, fronha e travessiro não precisam ser enviados, eles fornecem. Foi mais complicado escrever na blusa de frio, são muitos fiapos que ficam soltando e a tinta da caneta não fixa muito bem. Nas havaianas também marquei o nome dela: Clementina S. está nos dois pés do chinelo, que é azul e é capaz que ela não goste tanto porque não é rosa. Lembrei disso agorinha: deveria ter comprado o rosa, ela ia gostar mais, bem mais. Bom, já é tarde: nessa manhã ela foi levada com a malinha pra passar uma semana na casa de repouso. Não queria ficar.

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