Por favor, vó

Não esquece das noites em que eu, com meus sete, oito anos, eu e você, vó, ficávamos acordadas conversando até tarde. Não esquece, não, vó. Por favor, vó, não esquece de que foi você quem me ensinou a fazer brigadeiro, vó. E foi você que, sem eu ter dito nada, já sabia que sua netinha era uma mocinha. Esquece, não, vó. Das nossas caminhadas pelo condomínio de apartamento que um dia foi meu lar, das nossas festas de aniversário inventadas por pura vontade de colocar chapéuzinho na cabeça. Nem mesmo das vezes que eu fui mal criada, vó. Não esquece, não. Promete, vó. Porque, vó, eu lembro que você molhava o quintal e jogava sabão em pó no chão só pra gente ficar escorregando e você achava os seus netos os netos mais lindos do mundo. Vó, não esquece quem é seu coraçãozinho da vovó – hoje não ligo mais, vó, se você repete isso pra quem quiser ouvir. Lembra das nossas cabaninhas construídas com almofadas e todos os edredons da casa, do gatorade que você achava sem gosto e dá-lhe açúcar, das travessas de batata frita preparadas nas madrugada e do bolo nega-maluca com muita calda de chocolate, dos doces oferecidos em segredo minutos antes da refeição. Faz esse favor, vó. Não esquece do anelzinho com pedrinha azul que você me deu, da sandália da lilica ripilica que eu tanto, tanto quis. E não esquece que era você quem subia no telhado quando a pipa dos meninos caía, ou quando o pé de abacate insistia em dispensar a fruta fora da área destinada a tal fim. Ou quando eu pedia “vó, me dá cinquenta centavos pra comprar papel-de-carta?”. Eu ainda tenho a coleção, vó. Vó, não esquece, não esquece, não esquece. Vó, não esquece de mim, vó.

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“Queria enganar-se, gritar,

dizer que era forte, e a quentura medonha, as árvores transformadas em garranchos, a imobilidade e o silêncio não valiam nada. Chegou-se a Fabiano, amparou-o e amparou-se, esqueceu os objetos próximos, os espinhos, as arribações, os urubus que farejavam carniça. Falou no passado, confundiu-se com o futuro. Não poderiam voltar a ser o que já tinham sido?”

Vidas Secas.

Quero mais alma.

Lá, trancafiada em um cofre

Trancada num cofre, lá mora sua liberdade. A liberdade que você tanto ama, que você tanto venera. A liberdade tá lá, sozinha no cofre. Mas o cofre tem um segredo que até você desconhece. Protegida, enclausurada, esquecida, vendida, tá lá a sua liberdade. A liberdade da qual você tanto fala, que tanto você cuida e que, por isso mesmo, precisou colocar num lugar escondido por temer os ladrões. Essa sua liberdade te impede de viver um monte de coisas boas, te impede de se prender, um pouquinho que seja. Porque ela não deixa que você crie raízes – porque a cada raiz que criamos pelo mundo um pouco de nós mesmos e mais um pouco de liberdade deixamos. Cortamos um bocado de asa em cada nova pessoa que conquistamos.

Cada um é responsável pelos corações que habita.

Sua liberdade possui as asas atrofiadas.