Depressa

A Julia tem cinco anos e gosta de rosa. Ana, aos oito, adora quando a mãe faz tranças. Isso eu descobri nos minutinhos que esperava pelo sinal abrir, na Conde de Sarzedas com a Conselheiro Furtado, na Sé, e ouvia o tagarelar das irmãs.

As duas, uma de cada lado, se prendiam às mãos seguras do pai enquanto o sim do verde não vinha para deixá-las mais livres.

Julia se espantou quando viu um homem se arriscar entre os carros para economizar a parada ali na frente da faixa de pedestres. Olhou esbugalhada para o pai, como que se perguntando porque também não faziam o mesmo os três, veja bem.

Ele explicou laconicamente:

“A vida não é depressa”.

Como lição bem dada, as duas repetiram a frase, logo em seguida.

A vida não é depressa.

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Pedrinho, 4 anos

“Me lembe! Me lembe”, dizia gargalhando gostosamente. “Me lembe, Aurera!”. Aurera era Orelha, que na verdade era só Jimi, meu pastor alemão mais carinhoso. Ele e o Pedro pareciam ter se entendido, mas Pedrinho insistia em dizer que preferia a “cachorra que dormia embaixo do carro”, porque ela não “lembia”.

Foi até a sala de estar, pegou um aparelho de telefone fora de uso e disse que ligou para o pai: “Oi, papai! O Aurera fica me lembendo”, dedurava em meio a gargalhadas deliciosas e felizes. “Fui na casa da tia Zanza também. Lá tinha um tartarugo gigrante”.

Domingo de passeio com o avô.