Metafísica

Não sei o que é conhecer-me. Não vejo para dentro.
Não acredito que eu exista por detrás de mim.

(um dos poemas inconjuntos, in Poesia completa de Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa)

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Utilidade pública 2.1

O post Utilidade pública 2 levantou dúvidas em duas leitoras do Onomatopéia.

Tem circulado na internet, já há algum tempo, um texto intitulado “Aprender” que, supostamente, teria sido escrito pelo dramaturgo inglês William Shakespeare. Mas não foi Shakespeare quem o escreveu. Já que eu sou uma aspirante a jornalista, estou apurando quem é o verdadeiro autor do texto, uma vez que Autor Desconhecido é um ser que não existe.

Em breve, os leitores vão encontrar uma resposta mais concreta.

Gélida tulipa

Geladeiras normais conservam alface, ovos, latas de cerveja e potes de margarina. A da minha casa guarda um vaso com um bulbo de tulipa. Não, a dieta da minha família não é baseada em pétalas de flores. Tampouco nós  gostamos de comida macrobiótica e ou de bebidas estranhas como suco de alfafa ou de clorofila.

Acontece que, em outubro do ano passado, ganhei um vaso de tulipa de presente. Linda, linda. Porém, com o decorrer dos dias, a planta, não acostumada ao calor dos trópicos, começou a murchar. O escarlate vivo deu lugar a um vermelho apagado. E, como tulipas são tulipas, flores especiais que só, a minha veio com uma etiquetinha do fabricante que dizia que a planta, quando morresse, deveria ter as folhas arrancadas e os bulbos limpos, sendo conservados em um local “fresco e arejado”, ao ar livre, por três meses. Decorrido esse tempo, eles deveriam ser plantados em terra vegetal umedecida e mantidos na geladeira. Meio cética, fiz conforme a tal bula mandava. E não é que deu certo? Depois de seis meses na geladeira, à base de muito gelo e nenhuma luz natural para fotossíntese, a minha tulipa apresenta sinais de vida.

Fosse uma fênix, renasceria das cinzas. É tulipa: brota da morte.

tulipa.jpg

Poste de borracha

Entra no carro, puxa a manivela do banco. Ajeita. Dá a travadinha. Enquadra o mundo de lá de fora no seu retrovisor. Coloca o cinto de segurança. Enfia a chave no contato, pisa fundo na embreagem, engata a primeira, abaixa o freio de mão. Aos poucos, solta a embreagem e acelera. Quando ganhar velocidade, pisa fundo mais uma vez na embreagem, engata a segunda.

Perdi as contas do número de vezes que errei todo esse processo. Como na primeira vez que fiz o exame de direção, só para citar uma. “Quando você fizer sem pensar é porque você já sabe dirigir”, meu pai repetia. Na manhã de hoje, eu não fiz sem pensar. Pelo contrário, prestei mais atenção do que nunca. E deu certo.

Em dez dias, serei uma motorista com permissão para dirigir.

Ufa. Dá um alívio resolver certas pendências.

Agora eu só preciso de uma kombi amarela…

Utilidade pública 2

“… tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e que presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhar adiante, com a  graça…”

Isso não é Shakespeare!

Pronto-falei.

Processo de criação da notícia

Entrando pela porta da frente,
Sentiram pena.
Fizeram o que tinha de ser feito:
Perguntaram
Questionaram
Sugeriram.
— Mas como, senhora, sete filhos

O bafo quente encheu-lhes a narina,
A umidade provocou-lhes calafrios,
A desnutrição desnorteou-lhes a cabeça.
Fizeram o que tinha de ser feito:
Anotaram
Fotografaram
Inquiriram.
— Mas aqui papel não funciona não

Um cobertor puído roçou-lhes nos joelhos,
A papa requentada tirou-lhes a vontade,
Uma mão moribunda estendeu-se em suas direções.
Fizeram o que tinha de ser feito:
Contaram
Editaram
Publicaram.
— Vieram uma vez e só

Saindo pela porta dos fundos.
Fazendo o que tinha de ser feito.

“Iu, iu, iu…”

Ficava no ataque. Já naquela época perdera as esperanças de que um dia sua altura excederia os cento e sessenta centímetros. As outras garotas do time enxergavam nessa característica uma grande vantagem. O jogo ela conhecera havia uns três anos, quando mudara de escola. Sua altura permitia agilidade. Apesar de no início ficar entre as últimas a serem escolhidas, podendo sentir nesse ato o desdém na voz de quem apontava para ela, com o tempo   – e algumas horas extras de treino nas noites de sexta –, já se sentia como uma veterana. Não era mais a última a ser escolhida. Mais: era ela quem passara a escalar o time. A prática de esportes tornara-se sua válvula de escape. Levava as outras aulas com facilidade e, para não ganhar fama de CDF, esbaldava-se nos jogos de handball. A fórmula funcionara. Nas partidas, não chegava a ser a mais brilhante, mas também não estava entre as piores. Para ela, isso bastava.

Das aulas do professor de Educação Física – um baixinho que recebera o apelido de Laranja Mecânica, mas que, obviamente, de nada sabia – tirara uma grande conclusão: odiaria para todo o sempre a auto-ajuda. Perdera as contas de quantas vezes ele insistira em provar para ela, por a mais b, que ela tinha tudo para ser uma grande líder. “Você motiva os outros alunos”, dizia. Essas palavras só faziam entediá-la. Ela só queria jogar, suar, correr, ficar descabelada e, de quando em quando, marcar um gol ou outro.

O clímax de sua carreira esportiva se dera em uma tarde ensolarada. Ao marcar um gol, a torcida – que era então composta por todas as salas de seu ano –, comemorara em uníssono:

“Iu, iu, iu, Marília Playmobil”.

O apelido pegou.