Reencontro

Entrei na casa de almofadas coloridas esparramadas pelo chão e paredes azuis e senti uma felicidade grande. A volta ao passado, o início da faculdade, eu ainda meio que perdida no mundão que a avenida Paulista era pra mim, na época. Tsurus e mosaicos enfeitam delicadamente a sala. Na parte de cima do sobrado colorido, microfones, gravadores e o letreiro “Atenção Gravando” com fundo vermelho. Uma profusão de cores é a sede do Cala-boca já morreu. Lá tem gente preocupada e que faz refletir sobre mídia, educação e nosso papel no meio disso tudo.

 

 

Dois anos de ausência, mas me senti como se estivesse em casa.

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Lá vem ele

Pergunta, pergunta, já tá tudo certo: pilhas novinhas, fita no ponto. Sr. Prefeito, como a Prefeitura vê blá blá blá. Pergunta, boba, pergunta. Pref… Sr. Prefeito, como essa parceria blá blá blá. Pergunta, é agora, aproveita que daqui a pouco ele vai embora. Pref… Sr. Prefeito, o índices de blá blá blá. Ai, meu Deus, agora eu vou, agora eu vou, ei, não faz assim com meu gravador. Pref… Sr. Prefeito, a Prefeitura tem a intenção de blá blá blá. Pergunta, é agora ou nunca, pergunta, pergunta, aê. Prefeito. Ele tá olhando pra mim, meu Deus. Todos os microfones estão apontados para mim. Tira esse holofote daí, pombas. Prefeito, como vai ser a implantação do Programa Antipichação, previsto no Projeto Cidade Limpa?

Coletiva de imprensa é mó legal.

Ações afirmativas, não efêmeras

Quando a Princesa Isabel promulgou a Lei Áurea, em maio de 1888, o Brasil estava prestes a completar quatrocentos anos de colonização portuguesa. Hoje, passados quase cento e vinte anos, os negros, que são em sua maioria pobres, estão à margem de nossa sociedade. E o nosso país, que clama pela igualdade, é racista.

O próprio termo raça já é segregador. Afinal, a raça de todos nós é a humana. Não podemos ser divididos em pitbulls, persas ou carpas. Essa segregação velada é visível em vários âmbitos da nossa sociedade. É só olharmos para as favelas ou para as crianças que vendem doces nos semáfaros dos grandes centros urbanos. Somos uma única raça, mas cada um de nós é ao mesmo tempo único. Um professor meu diria: o homem é um ser paradoxa incompleto, , inconstante e inconcluso (mas isso não vem ao caso).

A melhor maneira de promover a ascensão social é por meio da educação. E, no Brasil, ela é sofrível. Por um lado, políticos que não vêem com bons olhos o desenvolvimento intelectual dos brasileiros (e que sabem muito bem que a educação é capaz de transformar o status quo). Do outro, brasileiros sem perspectivas e sem conhecimento de seus direitos. Resultado: um círculo vicioso, com uma população apolítica e descrente (já ouvi muitas pessoas dizerem que na época da ditadura militar as coisas eram bem melhores).

Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, intitulado “Inclusão e cotas raciais e sociais” (20 de agosto de 2006), a psicóloga Matilde Ribeiro discorre sobre a aplicação de ações afirmativas. Mas como falar de ações emergenciais – como as que prevêem o projeto de lei número 73/99 – se o ensino no Brasil é tão deficitário, se o preconceito é velado, se muitas vezes nos esquecemos de atitudes que poderiam trazer benefícios a longo prazo?

Enquanto o que valer for a efemeridade, o aqui-agora, o instantâneo e o carpe diem, então não será possível discutir educação.

Pão e circo demais para o meu gosto

Ah, só para não espalharem por aí que nesse blog nada foi dito sobre a Copa…

Sábado, 16 horas: início do jogo Brasil X França, que valia uma vaga para semifinal.

Resultado: um time ordinário perdendo para um time medíocre. Uma equipe acrítica, apática e amorfa.

E não me venham falar que a França jogou bem apenas para aliviar o lado do Brasil.

Outras considerações:

I. Pouquíssimas pessoas odiavam com tanto afinco o Parreira e um punhado acreditava que o Brasil se daria melhor com o Felipão. Bastou uma derrota para os especialistas futebolísticos saírem por aí derramando fel.

Moral da história: É fácil ser esperto depois.

II. Alguém já ouviu algum jogador dizer que fazia parte de um tal “quadrado mágico”?
E o Ronaldo intitular-se Fenômeno, alguém já viu?

Moral da história: Foi tudo uma criação da imprensa.

III. Não achei tão ruim o Brasil ter deixado o Mundial. Existem coisas mais importantes a nossa volta que afetam diretamente as nossas vidas.

Agora, vamos ao que interessa:

Semana passada comecei a ler o livro Abusado: O Dono do Morro Dona Marta, do jornalista Caco Barcellos.

Ainda não terminei de ler – são mais de 550 páginas –, mas o que eu já li foi mais do que suficiente para me deixar com vergonha. Vergonha do que? Simples… vergonha da minha cama macia e cheirosa. Vergonha da minha comida sempre fresquinha. Vergonha da minha casa espaçosa, da minha faculdade que custa mais de dois salários mínimos. E vergonha do meu comportamento, muitas vezes, também acrítico, apático e amorfo.

Ao longo da leitura, página após página, foi me dando um nó na garganta, uma vontade de chorar mesmo. Pois é, a garota classe média teve pena. Logo eu, que odeio esse sentimento. Imaginei crianças de dez, onze anos empunhando suas armas e as exibindo como troféus, mais uma prova de mostrar para o mundo que elas existem: “Ei, olha o que eu posso fazer com vocês!”. Essas crianças seguem, dia após dia, o lema carpe diem, hoje tão banalizado.

A impressão que eu tive, até agora, é a de que todo policial brasileiro é corrupto, coisa que eu sei não ser verdade. Eu quero, eu preciso acreditar que esse país tem uma solução, que as nossas crianças nas ruas são realmente nossas crianças nas ruas, e não só do vizinho. Preciso acreditar que após quinze anos de criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, as coisas mudaram para essas elas, mas sei que muitas vezes são meras cidadãs de papel.

O que me conforta, mas só um pouco, é o fato de as eleições estarem chegando. É hora de nós mostrarmos que queremos mais do que uma felicidade que vem a cada quatro anos. Eu gosto de futebol, porém acho também que nossos políticos gostam demais dessa política pão e circo. Mas quem sou eu para dizer aos outros o que fazerem?

No fim das contas, falar é fácil.

Respeitável público

Recordações do Escrivão Isaías Caminha é mais que um livro. É um tapa na cara. Lima Barreto conta, numa narrativa que por vezes parece mal acabada, a história do mulato Isaías Caminha, filho de um vigário e de uma negra. Na infância, o garoto costumava comparar o pai, um homem ilustrado, com a mãe, uma mulher simples e sofrida. Certo dia decide ir para o Rio de Janeiro, na ânsia de tornar-se um “doutor”. Uma série de infortúnios o leva a trabalhar na redação do jornal O Globo, como contínuo.

O livro nos indaga, logo no início, quem está por trás daquela caricatura de homem. Embora o homem esteja caricaturado, Caminha consegue tirar a venda de nossos olhos e nos faz enxergar a realidade: nua e crua. Descobriremos que esse homem é o mesmo que hoje se sente beneficiado com o sistema de cotas nas universidades, por exemplo. E, surpresa! Descobriremos, ainda, que o Brasil é um país preconceituoso, sim. Plaft. Outro tapa na cara.

E os brasileiros não foram povo. Foram na maior parte do tempo apenas público. Ou pelo menos tratados como tal. Aplaudimos tudo, no passado e no presente. Vivas à Princesa Isabel, a Redentora do Brasil! Vivas ao Programa Fome Zero, que acabará com a fome do povo, mas não ensinará a pescar o peixe! E vivas ao Carnaval, que diverte o nosso povo enquanto os traficantes fazem mais vítimas! Esse mesmo povo, quando pensava não ser mais público, era apenas massa de manobra. Ou o impeachment do presidente colorido foi realmente fruto de nossa vontade e luta?

Se o personagem Isaías Caminha fracassou em algum momento de sua vida ou se não teve o futuro que planejara, não foi só culpa dele. Os americanos brancos diriam que cada um faz da sua vida o que quiser e que é necessário lutar. Isaías lutou até onde pode e se não lutou mais foi porque acabou acreditando que era mesmo inferior e que já havia alcançado tudo o que poderia ter alcançado. Porque foi público e não povo.

Levado aos bastidores das redações, Caminha nos mostra o que é um jornal, como ele funciona e quão grande é a mediocridade das pessoas. Mas não é só isso. Vemos um Brasil dominado pela política do “você sabe com quem está falando?” e da relação público e privado um tanto misturadas. Nas redações, basta falar – e escrever – bonito para conquistar as pessoas. Artigos são feitos por encomenda. Jornalistas são vistos como defensores do povo.

Na verdade, o livro é muito mais que um tapa na cara. Sendo um quase auto-retrato de Lima Barreto – também mulato – “Recordações do Escrivão…” é um grito que estava entalado na garganta do autor. Um grito que teve uma função bem maior do que a panfletária. Foi um grito contra os falsos intelectuais e a favor dos humildes que conseguiam não mais viver, mas sim sobreviver. Lima Barreto não foi apenas público: escreveu, falou, gritou. Foi brasileiro numa época em que chique era ser francês. Brasileiro numa época em que não existia identidade brasileira.

Ver-go-nha. É isso que o livro nos desperta. Vergonha do nosso passado de conquistas absurdas e gloriosas. Do nosso comodismo. De nossa ilusão num país que se diz livre de racismos. De quando entra um negro no ônibus e seguramos nossa bolsa mais rente ao corpo. E, acima de tudo, vergonha de mim, de meu intenso falatório e de minha escassa ação.