Jogo dos tantos erros

Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã. Me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã

Pause

“Ai, amiga, ontem eu encontrei minha sobrinha. Tadinha, ela é inteligente e tudo, sabe? Mas tá estudando biologia. Biologia! Eu falei pra ela “isso não leva a nada, o que você quer ser da vida? Professora, é? Desse jeito você não vai crescer na vida” , mas ela disse que gosta. Agora, me diz, o que essa menina vai ser da vida? Trabalhar no Instituto Butantã? Afe. Eu disse pra ela que ela vai ser pra sempre assalariada. Não, ela não ouve. Os irmãos dela, sim, estão certinhos na vida. Um faz administração de empresas e o outro direito… É, eles estão certos mesmo. Esses têm futuro. Já viu algum biólogo ter negócio próprio? Não!”

“Eles ainda podem prestar concurso público…”

“Ééé! Ela não sabe nada da vida. Eu falei que ela tá investindo tanto em educação… quando o retorno vai vir? Eu disse “olha você, uma menina bonita e estudada, você tem que ter o retorno. Fica aí, vinte anos estudando, um dia você vai ter que ter retorno disse tudo”. Tem que ver essa menina… a coisa mais linda… um corpo lindinho. Dá gosto de ver… Mas bióloga! Não sei pra que estudar tanto e continuar sendo pobre…”

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Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar e essas coisas que diz toda mulher. Diz que está me esperando pro jantar e me beija com a boca de café

Giovani

O Giovani se desvencilhou da mãe e veio falar comigo. A boquinha estava cheia de arroz e feijão preto.

“Tia”, ele começou, “o ônibus depois sobe, né?”. Foi uma pergunta inocente, mas curiosa, típica para os seus quatro ou cinco anos de idade.

A mãe então intimou o garoto. Enfiou a colher de plástico na quentinha aberta sobre seu colo e tascou a comida na boca da criança. Mastigou impaciente. Veio falar comigo de novo. Nós estávamos sentados na última fileira de bancos do ônibus, aquele lugar que está mais sujeito aos acidentes topográficos de São Paulo. Resultado: a cada anúncio de lombada, o almoço do menino diminuía um pouco. Grãos de arroz e de feijão jaziam no chão úmido do ônibus.

No trajeto que liga a Igreja Imaculda Conceição até o Pão de Açúcar da Brigadeiro Luís Antônio, Giovani almoçou e, de brinde, ganhou um gole do guaraná Schin que a mãe, contrariada, lhe ofereceu. Deram o sinal de parada. Exasperada, a mulher gritou com a criança, sob a garoa fina da hora do almoço.

“Vai, muleque, se enfia no mercado que tá chovendo!”

E Giovani, nos passos ligeiros de suas perninhas curtas, subtraiu-se no meio da multidão de guarda-chuvas.

Reflexos

No reflexo da janela do ônibus, toda noite parece noite de Natal. As luzes da cidade refletem como pisca-pisca ligado e intermitente. Quando chove, então, é mais Natal ainda. Os respingos da chuva formam cada um pontinhos furta-cor. As luzes pintam os vidros com borrões de cores mal definidas, tremeluzindo a cada parada e partida e mais uma nova partida. Na janela do ônibus, ao anoitecer, é Natal o ano todo.

Indefinidas, as pessoas lá do lado de fora até parecem felizes, desgarradas de sua identidade, formando apenas – mais uma – massa. Esboços de sorrisos sob guarda-chuvas coloridos – a rua deveria ter mais deles.

Quando vi você ontem, de dentro do ônibus, a luz te emoldurou. Você parecia um presente, com laço e papel pardo de embrulho. Ainda não é Natal. Papai Noel não existe.

O soluço dela – e no que ele me fez pensar

Apertei o pause e tirei o fone do ouvido. Voltei a cabeça um pouco para o lado dela e então pude ver de onde vinha o tec tec tec. Ela digitava as letras com pressa. Suas mãos tremiam. Estiquei-me um pouco e li na tela do celular: “não precisava vc ter me feito chorar denovo”. Não me contive: fitei seu rosto. Era muito bonita. Cabelos loiros e longos, uma boca vermelha. Usava um vestido comprido e estampado em laranja e em amarelo vivos, um perfeito exemplar do tipo de roupa que só cai bem em pessoas altas e magras. Tinha os olhos verdes. Naquele momento, porém, o que mais  chamava a atenção nela não era o vestido cítrico, nem a boca bem-feita ou muito menos os olhos esverdeados. O que mais denunciava sua presença no ônibus era seu choro. Chorava como se por muito tempo algo estivesse em sua garganta aguardando a hora mais propícia para explodir feito rojão.

A moça me fez experimentar uma agonia enorme durante os  cinqüenta minutos em que estive sentada ao seu lado. Eu quis perguntar o que ou quem poderiam ter feito ela soluçar daquela forma. Não o fiz, é claro. Depois desse sentimento altruísta, me senti como se estivesse invadindo seu espaço. Encolhi-me então um pouco mais na minha parte do banco duplo. Aquela outra metade era dela, que chorasse tudo que quisesse, mas sem o meu olhar invasivo e inquisidor. Depois veio um sentimento egoísta e mesquinho: sorte minha aquilo não estar acontecendo comigo (sim, nós podemos ser malvados quando queremos – e bem mais do que imaginamos).

Por fim, a única coisa que saiu da minha boca foi um “você me dá licença, por favor?” quando meu ponto de descida finalmente chegou. A esse pedido a moça respondeu com um sorriso largo. Amarelo. “Sorria na sala e chore no quarto”, foi o que me aconselharam já há algum tempo.